Wednesday, December 23, 2009

Mete aí.

- Sou um santo!
- Tens uma alheira sobre a cabeça! Como é que isso faz de ti um santo?
- Qualquer sub-produto de um holocausto inacabado é santidade em potência! Sou ícone, inamovível e imperturbável. Da aliança do Homem com Deus. Os Judeus têm a circuncisão, os cristãos a hóstia...
- E tu uma alheira!
- É símbolo e definição, logo linguagem. Nela entendo o Alfa e o Ómega, o principio e o fim dos tempos unidos pela fina concordância da razão humana, que procura seu Deus para mais o agradar. Castanha como a Terra, preenche cada parte do seu interior a massa mole e difusa que somos. Humanos, hipócritas nos actos, auto-benevolentes, sádicos. Desculpa, não me ocorrem adjectivos... e não posso quebrar a concentração.
- Pois, não vá a alheira cair.
- Jamais! Sou Pedro, pedra, rochedo seguro, no alto do monte mais alto; em redor, domínio absoluto! De longe, luzirá o dia na noite, revelação na incerteza.
- Incerteza nenhuma, é de Mirandela e é mesmo boa!
- Meu pensamento discorre, acelerado, e projecta-se entusiasmado nesta abundância que jorra, que bebo sofregamente, como se não houvesse amanhã!
- Branco ou tinto? Eu prefiro tinto.
- Sou superior às tuas graças. Deixa-nos partir soltos, e mil prosas farei, cem mundos conquistarei, uma verdade absoluta abrirei. Pois a revelação é questão de certezas na fé. E perseverança!...
- Acompanhadas com batata frita, claro! É uma alheira, homem!
- Não, é improviso e espanto, castidade e adaptação. É a cultura de um povo em cada curva do perímetro. É... é a beleza na intenção de quem segura, de quem teme. Velarei dia e noite pela sua glorificação!
- Pois.
- Que a cinza dos mortos me cubra, se algum dia desviar minha intenção deste objectivo!
- Hum hum... O grelhador está aceso faz tempo.
...
...
- Tenho fome.
- Mete aí.

Tuesday, December 15, 2009

Dá Deus nozes a quem não tem dentes.

A insatisfação da satisfação inconsequente de outrém. Diz-se de quem tem a sorte constantemente a bater à porta, mas não aproveita ou não agradece a mesma. Será Inveja, daquela que salta ao ouvido?
Há os afortunados e os "nem por isso". Construídos ou atribuídos, os acontecimentos inverosímeis, desejados ou espontâneos, são motivo de discussões. Tendo por origem Deus, Destino, Fado, Sorte, Fortuna, as Forças do Universo, o número de Plank, uma certeza fica: a realidade é-o, a partir daquele instante em que a graça é concedida. Ou fabricada, por nós ou outros...ou sempre esteve escrita.
O que fazemos com ela é que nos distingue. De nada serve uma fortuna testamentada se nos comportamos como novos-ricos e esbanjamos como se tivéssemos a certeza na palma da mão (ou no MasterGold da Visa)! Os que não têm dentes sempre podem guardar o espólio, para uma outra ocasião. Pedir a outro que as abra, trinque e lhas ponha na boca. Vendê-las, trocá-las por um album em vinil do Quim Barreiros. Aliás, o ditado, como o conheço e comummente ouço, é mais completo, logo mais redutor: "Dá Deus nozes a quem não tem dentes para as comer", o que claramente indica que foi concedida inconvenientemente a graça... Hum... estou a afastar-me do assunto.
É justo? Que ele tenha melhores notas sem ter estudado, e não queira seguir estudos? Que a miúda mais gira o ama e ele é gay? Que Deus nos tenha dado este mundo para cuidar e o máximo que conseguimos é querer imitá-lo? Não creio que Deus seja um miserável sem sentido de humor. Pelo contrário! Se o faz é para nos apercebermos que a humildade e a admiração são dons a cultivar.
Atribuímo-nos o papel de pseuDeuses quando julgamos e sentenciamos. Saberemos porventura toda a existência concreta de alguém? "Deus escreve direito por linhas tortas", diria agora. Porque não tentar um "Deus lhe dê discernimento para bem aproveitar o que lhe foi dado", apelando a uma melhoria contínua na capacidade de acção do outro? E sentir realmente essa vontade!
Congratulemo-nos pelas graças concedidas, a nós e outros. O resto... é com Deus.

Monday, December 14, 2009

Dúvidas sobre Deus

Leio e revejo no drama que tem sido a minha relação com Deus nos últimos anos: na Vontade de O Explicar, perco o Sentir-me com Ele e nisso, o Sentir-me com os outros. Bolas, ando diabolizado, pensar e sentir não andam coerentes e por muito que diga "sou cristão" não ajo nem me sinto sempre como tal. Católico então... Ou seja, até posso pensar em abraçar o mundo e mesmo fazê-lo, mas de nada me serve se não sentir o mundo nos (a)braços.
Com tantas versões do mesmo Deus ando confuso: ainda mais quando o hermetismo das palavras e expressões toca o ridículo. Desculpem-me os mais espirituais, mas sou um tipo de ciências, e nas questões espirituais um autêntico trolha. Preciso de conhecer exactamente o que me dizem. Mesmo abstractamente, tem que existir uma redundância que permita a comparação. Revelem Deus no concreto e perceberei. Não venham com “É demasiado complexo para ser tratado com tanta veleidade”, são tretas e sabem-no.

Sunday, December 13, 2009

Lutas

Uma pergunta recorrente nos dias de hoje, feita pelos mais e menos novos, que tanto nos espanta, desconcerta e por vezes assusta: Onde está o mal?

Pois é essa questão, colocada antes ou depois dos porquês, que resume muita da problemática do esforço (Luta): se aquilo a que pretendemos é correcto (Bem) ou incorrecto (Mal).

Fará sentido encetarmos uma cruzada para a concretização de algo que consideraremos profícuo (bom) para todos, desde que não interfiramos com vontades alheias: o consenso, advindo do diálogo esclarecido, seria a confirmação da Resposta como soma das partes. Alguém que se isola nunca provará o doce sabor do Amor, porque esta surge da Dualidade Amorosa, o partilhar numa entrega que se pretende Total...

Não dá para ignorar a combatividade de quem se entrega nas causas que considera justas. No entanto, o empenho na resolução nem sempre se encontra no desgaste do adversário, também o podemos encontrar no aproveitamento das próprias forças.

Um grito de revolta indispõe; uma verdade transmitida predispõe.

Tuesday, November 17, 2009

Um Deus que nos Ama ou pede para ser Adorado?

I Jo 4, 7-10

O Universo, longe de ser imutável, fervilha de transformações de nós ocultadas. No entanto, cosmos e caos coexistem num simultâneo e harmónico infinito.

Tempos vão em que o homem horrorizava perante a natureza e a grandiosidade das ocorrências, atemorizado com o não-explicável. Medo, angústia, uma vivência dobrado sobre si e com o olhar posto na retaguarda. Depois, racionalizou o "Porquê?", o "Como?" e ao fazê-lo Deus revelou-se. O Homem cresceu seguro, pois o incompreensível deixou de o ser. Ganhou confiança nessa força maior com a qual se relacionava e deu-lhe nome.

Deus, quando criou céu e terra, criando por conseguinte o homem, fê-lo por amor e ama a sua obra. O amor de Deus pelo homem por si criado revela-se nas pretensões d'Este: Se o amor verdadeiro provém de Deus, Ele quererá que todo o que procure esse amor venha até Si. O homem tenderá para esse amor, sublimando as suas imperfeições, procurando a perfeição nesse amor.

Compreender Deus é aceitar a segurança da perfeita simplicidade. Feliz de quem o compreende e aceita, fazendo seus os ensinamentos d'Ele. Jesus Cristo resumiu os mandamentos de seu Pai da seguinte forma: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo". Sinais de um Deus que revelou querer ser amado.

A condição do homem, carregado de tensões inexplicáveis e desconhecedor de purificações absolutas, apenas lhe permite uma quase-perfeição. Através do exemplo de Jesus progredimos ética e moralmente, dando visibilidade aos seus ensinamentos e criando a sua utopia, mas o amor nunca igualará o que Deus sente por nós.

Deus ama. Independentemente do amor que sentimos por ele. Afinal, estamos vivos.

Jo 4, 23-24

Um Deus que se tornou carne, habitou entre nós, nos ensinou a verdade na história. Que mostrou o seu amor por nós, o amor de Pai, porquanto um dos três vectores da Santíssima Trindade. Que se revelou Homem. Jesus relembrou-nos que "à Sua imagem e semelhança" tem literalidade incluída.

Na sua origem etimológica, a adoração faz-se exclusivamente a Deus. Implica uma transferência do olhar para o ser adorado, desprendermo-nos para absorver. Sem comparação, sem limites impostos, captando o todo, evidenciando-o como superior, o adorador une-se ao adorado pelo sentimento e vontade daquele.

Com Jesus, quebra-se a prisão ao local de culto e adoração, a um ritual específico. Pai, Filho e Espírito Santo… Pensamento, Acção e Relação… Mente, Corpo e Relação… Um templo no qual o homem vive. Nesse templo ritualiza a comunhão com Deus-espírito-omnipresente, a adoração não está consignada a um local ou espaço próprios. Libertos estão os seguidores para, através da oração, intercederem junto dele onde e quando o pretendam.

Deus quer ser adorado. Na sua adoração, o homem adquire características do próprio Deus, aproxima-se de Deus.

Deus ama e quer ser adorado. Ansiarão Deus e a humanidade um enamoramento recíproquo?

Sunday, November 08, 2009

Epifania

Já me tinha questionado
Onde e quando havia perdido
A admiração nas pequenas coisas
Que mostravam o dom contido

Talvez me tenha caído do bolso
No intervalo do Sporting-Porto
Quando cuspi na cerveja do Amaral
Nunca gostei desse gajo.

Ou porque insistentemente
Os meus colegas me chamavam totó
Pela roupa amarela que a minha mãe
Fazia questão que vestisse.

Conheci um tipo porreiro
Quando estava na Secundária
O sacana falou-me sobre filosofia
Porra! Tenho tanto para dizer.

Apetece-me gritar num megafone
Que o mundo é imperfeito e não me seduz
Especialmente porque ninguém
Sabe quem o conduz.

Quero a minha epifania de volta
Antes qu'esta revolta me dê prazer.

Monday, April 27, 2009

O menino e o a-modos-que-dizem-que-é-assim-assim-pró-doido

- Dão chuva para amanhã.
- Dão? Anda assim tão cara que ninguém a compre?
- Hã?
- Ainda se fosse tempo de seca... agora abril, a gente quer é sol! Ah...ouvi dizer que em Wall Street disparou, se calhar é por isso que... Mas... o Alqueva tá cheio!
- Não... vai chover amanhã!
- Vai tu! Ó menino, se a tua mãe não te dá educação em casa, olha que comigo é à antiga! O fedelho...
- Não, vais estar de chuva!
- Quem? Quem vai estar de chuva? Um fato desses não passa despercebido! Onde o mandou fazer? Caro, deve ser muito caro! Aposto que por baixo nada enverga e que mostra as partes.
- Vai cair água amanhã!
- Vai? Se já sabes que ela vai cair, é porque quem a vai empurrar és tu! Ou alguém que conheces! Conspiração, é uma conspiração! Quem, diz-me quem!!
- Não é nada disso!!!
- Ai não é? E então vai estar sol?

Saturday, April 25, 2009

Molibdénio

- Tão forte que era! Deixou o nome, e ele mesmo era assim: perpétuo e estanque!
- Quem?
- O meu cão! Coitado! Chamava por ele, vinha! Dizia “rebola”, e acontecia vê-lo, de encontro ao armário da sala, até ficar inconsciente! Lindo!
- Hã?
- Era um encargo enorme, comia que fartava! E o pelo, enorme! Que trabalheira!
- Estás bem?
- Estou! Porquê?!
- De ufano que estás, julgar-se-ia ter-te calhado a farta herança de um falecido benfeitor.
- Foi quase o mesmo! Já te imaginaste a cuidar de um São Bernardo?
- Já. O meu tio de Vila Viçosa veio de férias e assentou arraiais lá por casa faz um mês segunda que vem. Sofre de bulimia nervosa, tem 168 quilos, escaras do tamanho de folhas A3 e urina na cama. Ressona como uma moto serra, trouxe a colecção de formigas e não perdeu o gosto de usar tanga. À conta disso não durmo mais que 3 horas seguidas, tenho a casa irritantemente limpa e a minha esposa mudou-se para casa dos pais.
- Queres uma chicla?

Düsseldorf, Deutschland

- Estás a rir-te de quê?
- Não me estou a rir.
- Pareceu-me ouvir uma gargalhada.
- Ah… não. (sorri)
- Mas agora estavas!
- Corrigindo-te, estava a sorrir.
- Mas expiraste quando sorriste, logo gargalhaste! Que eu bem ouvi, parecias um perú abafado!
- Só se foi depois…
- Depois do quê? De gozares comigo? Pois, eu tinha razão! Gozas de mim, do que digo e faço. Da minha deficiência na fala e dos seis dedos nos pés! Sempre gozaram comigo, sempre! Colegas, professores, “amigos”... Todos, todos eles! A culpa não é minha, sabes?
- O teu português é perfeito, Raul. E que eu saiba, não que tenha visto, estás de perfeita saúde.
- Ai é, ai é, queres ver? (retira furiosamente um dos sapatos e a meia correspondente e coloca o pé frente a Luís) Vês, vês?
- Cinco dedos vermelhos, suados e almiscarados. Vejo que tens um problema que te aflige e não mo contas. Preferiste o refúgio num universo que criaste à tua pálida imagem, que minuciosamente construíste e julgaste seguro, onde as questões, mesmo as mais pequenas, são microscopicamente observadas e depois retalhadas, garantindo assim um continuum resolutivo paralelo, que te prende e extasia. De fora, julgam-te insano, mas és na verdade vítima de uma sociedade que ignora os males individuais e os oculta nas questões massivas, comuns.
- Pois, mas são largos, e juntos parecem seis.
- Estás de perfeita saúde, Raul.
- Mas podia estar mal, muito mal. E tu não perguntas nada, não queres saber de mim, és um insensível, a mãe sempre gostou mais de mim que de ti, sais ao pai, insensível e desligado de tudo e todos. Já quando fiquei com a cabeça presa na janela do carro foi a mesma coisa, ia morrendo sufocado. Foi horrível, lembro-me todos os dias. E ele o que fez? Nada, rigorosa e absolutamente nada!
- O pai estava em Düsseldorf em negócios.
- Vês, estás a dar-me razão!

Wednesday, April 22, 2009

Aí em cima? Frio, aposto!

(dois irmãos, em viagem, na parte de trás do carro)

- Olha, um largato!
- É lagarto que se diz, Francisco. Se o viste naquele local, é porque está a dar lá o Sol, provavelmente tratar-se-á de uma parede a sul. Ou mesmo um local com maior incidência de insectos, os lagartos comem insectos.
- Ah... O pássaro levava-o na boca...
...
- A paisagem está a perder a forma!
- Trata-se com certeza de um fenómeno de refracção e dispersão da luz. O paralelo em que nos encontramos é típico nestes fenómenos.
- As árvores estão mais perto de nós...
...
- Vi a Tia Alberta!
- É Agosto, os emigrantes regressam, para aproveitar o sol, as praias, rever a família. Ritual que lhes permite manterem-se a par do que são e com quem são.
- 'Tava uma fotografia naquele papel na parede lá atrás...
...
- Parti uma unha! E fiz sangue!!!
- Se a unha está frágil, come ovos, a clara contém imensa proteína. Agora, róis a unha até ficar certa, cospes para expulsar os germes da boca e no final colocas um pouco de saliva na ferida, vai sarar mais depressa.
- Já foi noutro dia...
...
- O que seria de mim sem ti, mano?
- Um queixinhas ignorante.

Sunday, April 19, 2009

Taizé - Proposta de uma alternativa na Terra - 2000 e picos

Taizé foi um dos elos em comum. As motivações pessoais que levaram 33 pessoas dos mais variados pontos do país, diferentes idades e estilos de vida (estudantes do ensino superior em Leiria, na grande maioria), complexas personalidades e questões perante a realidade da sua existência, a encetar, pela primeira vez ou não, uma viagem onde acabariam, ainda que não o desejassem, por revelar uma centelha do seu Eu, as motivações, escrevia, ser-me-ão ainda hoje desconhecidas. No entanto, essas pessoas eram portadoras de uma grande vontade, havia algo que as impelia a fazerem esta precisa viagem. De onde provinha essa mesma vontade, creio nem elas próprias, concretamente, saberem… Mas as palavras lançadas em momentos de doação pessoal, de entrega, são demonstradoras de uma experiência única…a repetir. Algo de que uma fotografia seria um pálido reflexo…

Taizé será, após uma semana de estadia, uma lembrança de um tempo bem passado na companhia de amigos (velhos e novos), uma experiência marcante na vida, uma (re)descoberta intimista do Eu e de Deus (como eles se confundem!),uma esperança de um regresso, uma constatação da possibilidade de uma vida de partilha de gestos e de algo mais, um parágrafo no Curriculum Vitae…

Taizé é a realização de uma Utopia na Terra, onde as palavras “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, que traduziram as aspirações de um povo numa época de mudança, ganham forma e se materializam, num espaço concreto de uma simplicidade enorme e de uma eficácia, aos mais variados níveis, sem igual.

Taizé estará, de certa forma, simbolizada na sua igreja: de linhas simples e harmoniosas mas possuidora de um dinamismo, beleza e inteligência sem igual, com traços indicadores de uma génese ecuménica, destinada a motivar, no encontro dos mais variados sectores da Igreja, um encontro em oração, uma partilha de sentidos, uma comunhão de emoções.

Taizé é um local onde o convite à oração, na igreja e na companhia dos irmãos, é renovado três vezes por dia. No entanto, esta surgirá a qualquer instante e independente do que nos rodeia: numa conversa casual com um “estranho” ao almoço, na observação de um ícone, num passeio junto aos lagos, num ensaio do coro, num abraço…

Taizé é um espaço onde ocorre uma expansão do Tempo, tal a intensidade e profundidade de cada experiência, onde “o deus das pequenas coisas” nos interroga quando, conscientemente ou não, sobre elas incidimos a nossa atenção e retiramos e sua essência. Reflectimos então.

Taizé é uma proposta de vida, de aprofundamento da espiritualidade, da qual se espera uma transposição para o quotidiano. Um movimento baseado na busca de uma resposta nos evangelhos, através da oração, do silêncio, poderá, então, ser dado pela frase, do sueco, “Jag ska dit, ska du?”, cuja tradução, livre, aproximar-se-á de “Eu vou por aqui, e tu?”.

Monday, April 13, 2009

Estrela imanente

(um sujeito atende o telefone)
- Estou?
- Ainda não lhe perguntei nada, amigo!
- Quem fala?
- Além de não saber se está ou não, é curioso!
- Bolas, está a gozar comigo?
- Consigo e com a sua mulher!
- Como ousa? Seu… seu…
- Tem calma Joel, é o Vítor. És tão tanso, pá.
- Chiça, devia ter adivinhado! Sacana, é a 2.º vez hoje! Para de me chatear, pá! Que queres?
- Liga a televisão, cegueta.
-‘tá ligada.
- Mete na 2, desorientado.
- Porquê?
- Já vês, palerma.
- …
- Então, tijolo?
- Intervalo, pá!
- Está a terminar, pató.
- Como sabes? Vais aparecer na televisão?
- Vou, zeca!
- Então? A esta hora…
- Não sabias, toino? O presidente veio à cidade e…
- Espera, já apareceu, estou a ver o carro com a bófia à frente!!
- ‘tás-me a ver, badameco?
- hum… Estou, estou!
- ‘tás a ver o cartaz que tenho na mão esquerda, vesgo?
- Sim!
- Consegues ler o que diz?
- A mulher do Joel anda a engan… o quê?
- Passas tempo demais fora de casa, totó!
- Gaita, como é que sabes?
- Olha para a televisão, bácoro.
- Estás a apontar para ti porquê?

Deus faz em mim ver...

Que olhos te vêem
Como és?
Da cabeça ao infinito
Do passado aos pés,
Uno e indiviso,
São os teus,
Os meus!

Cravadas na memória
das
Gerações, as premissas
Dos de hoje
Pautam o renascimento
Da parte ao todo
Num ruidoso consentimento.

A multidão age tua palavra
Sobre um não-sentimento,
Dez moedas, múltiplas histórias
Falso unguento
que
Abre feridas e cerra-mentes,
No descrédito
Das imoralidades crescentes.

A febre queima a sensibilidade
Do administrador Presente.
O digno e criterioso ecónomo
Filho do prazer sensato,
Da Eterna Verdade,
Terá vitória frágil,
Gesto subtil e
Palavra fácil,
Sua surdina sucumbirá
Ao boato infame.
Que exame, que vexame.

A manhã virá!
Gloriosa!
A lágrima deixará,
copiosa,
De cair, e o estado febril,
Lugar dará à calma eterna.
O Descendente do Homem,
O Filho do Pai,
O Corpo e Mente,
Se Unirão,
Num sólido presente.

A ascensão
todos os dias
acontece
Perde-a
Quem adormece.
.

Thursday, April 09, 2009

Dentro

Falas comigo em sonhos
Numa língua estranha,
Que mal percebo,
Que não concebo.

Trazes uma agenda de mim
Que desfolhas sem pressas.
Prometes a revelação
Um caminho aberto p'la palma da mão.

Pela História, avança a Memória
De um Homem diferente,
Que amou como ninguém
Nos revelou, encarnando, o Bem.

Fundamentando razões,
Ultrapassou provações,
Faz em mim, como quiseste p'ra ti
Cristo Jesus.


Tuesday, April 07, 2009

Ministério da Administração Interna, 2012

(Jorge Miguel conduz e atende o telefone)
- Estou?
- Estou sim? Jorge?
- Quem fala?
- É o Rui, de Serpins! Precisava de falar contigo, tens tempo?
- Rui de Serpins… Rui de Serpins… não estou a ver…
- O Rui pá, conhecemo-nos numa formação de jardinagem, estava aí no regimento, fomos almoçar um par de vezes ao “Conde”!
- Ao “Conde”?! Não estou a ver… Nem conheço nenhum restaurante com esse nome…
- Não, o Conde, aquele tipo que tem a casa a caminho da barragem!
- Se calhar é engano…
- És o Jorge Miguel de Cem Soldos?
- Não, bem me parecia que era engano.
- É pá, que gaita. Desculpe lá então tê-lo interrompido!
- Não há problema, até ia a caminho do trabalho quando atendi.
- A caminho do trabalho? Espero que não fosse a conduzir, se a bófia o apanha…
- Não há problema, vou na A17, as patrulhas só fiscalizam a velocidade he he he…
- E aposto que tem kit mãos livres!
- Por acaso não, este Semifroid não aceita o que eu tinha…
- Ui, isso não dá jeito nenhum… Já agora, apresento-me: Rui Canas, da BT. Está multado por utilização indevida de telemóvel na forma continuada durante a condução.

Sunday, April 05, 2009

eternidade

Como um cancro,
Que sem método
Mascarado avança,
Corroendo impiedosamente
Pois obstáculo
Não encontra,
Travão desobedece,
Uma e outra meta alcança,
Sinónimo de perda
Para quem procura,
Mais um dia virá...
Talvez a cura e,
Então sem doçura
Acabará
Inferno presente
Se tornará
Passado distante,
Ânsia premente
Futuro incerto
Espírito aberto
Eternidade alcançará.

Sexualidade e Espiritualidade

Da visualização e apreensão das palavras poderia resultar uma separação etimológica das mesmas. Estaria correcta, as raízes são distintas. E se... uma dependesse da outra? Se lhe coubesse a si decidir, a qual pertenceria a outra? Perderiam valor/importância por isso mesmo?

O Homem é, em grande medida, biologicamente explicável. Haja vontade para o fazer e, ultimamente, empresas financeiramente dispostas a tal (porque alguns Estados teimam em fechar os olhos a uma realidade).

Oriente e Ocidente mapearam energética e física/materialmente o corpo humano nos últimos milhares de anos. Estas descobertas, filtradas de acordo com as vontades de alguns, revelam-nos algo muito simples, com a devida atenção: o homem possui, em comum com as restantes formas de vida que com este partilham esta Rocha, uma subtil forma de transformar matéria e energia, e vice-versa. Grande coisa, poderão pensar. Outros Calhaus de maiores dimensões libertam energia, e grandes Buracos absorvem-na. A própria Terra o faz. O Homem fá-lo conscientemente, e aí reside a maior das diferenças.

Tem ainda a capacidade para canalizar, orientar essa energia dentro do corpo, através de um processo profundamente sensorial. O que Freud designava por Pulsão desempenha, para além das tradicionais funções sexuais e de “manutenção” corporal , uma função superior: um estímulo intelectual.

Tal força interior, que podemos chamar de Vontade, actua como verdadeiro instrumento impulsionador e estimulador de acções e condutas.

Quando estabelecido um correcto e cadenciado ritmo, a junção da Vontade inferior com a superior gera um turbilhão energético cujo caudal é suficiente para suprir várias necessidades do ser humano, de natureza cognitiva, e originar fenómenos a que a ciência atribui nomes como faquirismo, experiências extra-sensoriais, fenómenos para-psíquicos e outros.

E…?

Sexualidade e espiritualidade, enquanto experiências com um fito pré-definido, ou seja, a descoberta sensorial do outro e a descoberta de Deus, têm o mesmo efeito (secundário?): no outro, ser ou Deus, me vejo, reconheço, lanço, contemplo e liberto, pois seremos, no cumular, um só.

A materialização de um sentimento duma forma forma sexuada é-nos entregue como algo superior, prevendo a ascensão a um estado de unificação, partilha, identificação, entrega, um apelo à concepção se planeada, sendo então fortemente prenunciador do surgir dum novo ser, possuidor da essência da vida.

Será utópica a sociedade carregada deste simbolismo?

Saturday, January 17, 2009

Duas

- Quero duas.
- Duas quê?
- Duas dessas.
- Dessas quais?
- Das acastanhadas.
- Acastanhadas?
- Ali, atrás das amarelas.
- Amarelas? Grandes ou pequenas?
- As grandes.
- Desculpe, mas aqui só vendemos das pequenas.
- Ah… que horas são?
- As que quiser.
- Apetece-me comer qualquer coisa…
- Refeição ligeira ou substancial?
- Algo assim do género salada.
- Certo. (acerta o relógio do cliente) Ora bem, são 18:30 e estamos a servir umas entradas deliciosas.
- Ótimo. Quero duas.

O que é isso???

(Um casal sentado à frente da televisão)
- Estava aqui a pensar…
- Ah ah ah … (riso incontrolável)
- De que ris?
- De ti. Regressaste a casa à três horas. Sentaste-te aqui, perguntei-te como estavas e, calado, ligaste a televisão. Perguntei o que querias para o jantar, pediste-me uma cerveja; fiz o jantar (foram ovos com chouriço, não sei se reparaste), lavei a louça, ajudaste-me? Não. Estou a coser duas meias que queimaste com cigarros (gostaria de saber como). Disse-te que a minha mãe vem cá passar uns dias para o mês que vem, para te picar; é, como deverias saber, mentira pois ela faleceu fez Janeiro passado 3 anos. Mudei para a novela das dez, que odeias. Fumei para cima de ti (és alérgico)… ignoraste-me a noite toda, e arrematas com um “Estava aqui a pensar…” O que é isso???
- Profundidade de pensamento?

Supernova

- Vi a mulher da minha vida.
- A sério? E falaste com ela?
- Tentei, mas o pai não deixou.
- Não deixou? Porquê?
- Disse-me que ainda não tinha idade para ela.
- Se o pai duma gaja me dissesse isso…
- Não foi o dela, foi o meu.
- Ah… E então? Conheceste-a no mercado?
- Não, no cinema.
- Que te disse?
- Nada, mas deixou-me um bilhete.
- Deixou-te um bilhete?
- Sim, durante o intervalo. Estava no bar a comprar um Kloche de mentol. Ela chegou, sentou-se ao balcão, pediu uma gasosa, sorriu e deixou-se.
- O que dizia?
- Já te disse que não trocámos palavra.
- O bilhete.
- Ah! (Tira um pedaço de papel do bolso) Fila F, lugar 18.
- Então mas…
- É código, um anagrama. Repara. (olham ambos para o papel)
- Perfeitamente!
- Ana Queirós, 963 547 786, Rua do Lavrador, 44.
- Incrível. Suprema inteligência. E tu, que sortudo. Vais convidá-la para jantar?
- Não. Creio ser cedo de mais.
- São quase sete da tarde.
- Está bem, vou ligar-lhe.

- Então?
- Não atende.
- Tenta de novo.

- Estou? Ana? Deixaste-me o teu contacto...(Conversa onde o personagem solta alguns monossílabos)

- E…
- Era o meu pai. Disse que hoje não jogamos crapô.