- Estás a rir-te de quê?
- Não me estou a rir.
- Pareceu-me ouvir uma gargalhada.
- Ah… não. (sorri)
- Mas agora estavas!
- Corrigindo-te, estava a sorrir.
- Mas expiraste quando sorriste, logo gargalhaste! Que eu bem ouvi, parecias um perú abafado!
- Só se foi depois…
- Depois do quê? De gozares comigo? Pois, eu tinha razão! Gozas de mim, do que digo e faço. Da minha deficiência na fala e dos seis dedos nos pés! Sempre gozaram comigo, sempre! Colegas, professores, “amigos”... Todos, todos eles! A culpa não é minha, sabes?
- O teu português é perfeito, Raul. E que eu saiba, não que tenha visto, estás de perfeita saúde.
- Ai é, ai é, queres ver? (retira furiosamente um dos sapatos e a meia correspondente e coloca o pé frente a Luís) Vês, vês?
- Cinco dedos vermelhos, suados e almiscarados. Vejo que tens um problema que te aflige e não mo contas. Preferiste o refúgio num universo que criaste à tua pálida imagem, que minuciosamente construíste e julgaste seguro, onde as questões, mesmo as mais pequenas, são microscopicamente observadas e depois retalhadas, garantindo assim um continuum resolutivo paralelo, que te prende e extasia. De fora, julgam-te insano, mas és na verdade vítima de uma sociedade que ignora os males individuais e os oculta nas questões massivas, comuns.
- Pois, mas são largos, e juntos parecem seis.
- Estás de perfeita saúde, Raul.
- Mas podia estar mal, muito mal. E tu não perguntas nada, não queres saber de mim, és um insensível, a mãe sempre gostou mais de mim que de ti, sais ao pai, insensível e desligado de tudo e todos. Já quando fiquei com a cabeça presa na janela do carro foi a mesma coisa, ia morrendo sufocado. Foi horrível, lembro-me todos os dias. E ele o que fez? Nada, rigorosa e absolutamente nada!
- O pai estava em Düsseldorf em negócios.
- Vês, estás a dar-me razão!
- Não me estou a rir.
- Pareceu-me ouvir uma gargalhada.
- Ah… não. (sorri)
- Mas agora estavas!
- Corrigindo-te, estava a sorrir.
- Mas expiraste quando sorriste, logo gargalhaste! Que eu bem ouvi, parecias um perú abafado!
- Só se foi depois…
- Depois do quê? De gozares comigo? Pois, eu tinha razão! Gozas de mim, do que digo e faço. Da minha deficiência na fala e dos seis dedos nos pés! Sempre gozaram comigo, sempre! Colegas, professores, “amigos”... Todos, todos eles! A culpa não é minha, sabes?
- O teu português é perfeito, Raul. E que eu saiba, não que tenha visto, estás de perfeita saúde.
- Ai é, ai é, queres ver? (retira furiosamente um dos sapatos e a meia correspondente e coloca o pé frente a Luís) Vês, vês?
- Cinco dedos vermelhos, suados e almiscarados. Vejo que tens um problema que te aflige e não mo contas. Preferiste o refúgio num universo que criaste à tua pálida imagem, que minuciosamente construíste e julgaste seguro, onde as questões, mesmo as mais pequenas, são microscopicamente observadas e depois retalhadas, garantindo assim um continuum resolutivo paralelo, que te prende e extasia. De fora, julgam-te insano, mas és na verdade vítima de uma sociedade que ignora os males individuais e os oculta nas questões massivas, comuns.
- Pois, mas são largos, e juntos parecem seis.
- Estás de perfeita saúde, Raul.
- Mas podia estar mal, muito mal. E tu não perguntas nada, não queres saber de mim, és um insensível, a mãe sempre gostou mais de mim que de ti, sais ao pai, insensível e desligado de tudo e todos. Já quando fiquei com a cabeça presa na janela do carro foi a mesma coisa, ia morrendo sufocado. Foi horrível, lembro-me todos os dias. E ele o que fez? Nada, rigorosa e absolutamente nada!
- O pai estava em Düsseldorf em negócios.
- Vês, estás a dar-me razão!
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