- Táxi!
- Para onde?
- Siga em frente.
...
- Gosto daquela parede.
- Porque diz isso? Nada vejo de especial...
- Está ali.
- E é por isso que gosta dela?
- Sim, por estar ali.
- Podia estar ali um taco de golfe, também gostaria dele?
- Credo, não, que estranho e absurdo!
...
- É sólida.
- Desculpe?
- A parede, é sólida. As do meu apartamento são de pladur, ouve-se tudo, e quando me encosto sinto-as vergarem-se sob o meu peso. É lisa, não é daquelas que arranham quando passamos com a mão. E tem uma cor agradável, amarelo-torrado, faz-me lembrar os pôr-do-sol nas arribas junto ao mar e aquele magnífico ano de 86 em que os vi a todos os de Agosto, um a um, quando ainda morava com a... Importa-se de ir por essa estrada? Não gosto de passar por aquele bairro, quando estava na primária uns miúdos daqui ataram-me a uma lata de lixo e pegaram-lhe fogo. Felizmente, apagaram-no a tempo. Nunca mais fui capaz de olhar para um, traz-me más memórias à cabeça. Apanhe a 2.ª à direita e siga por aquela variante. Por falar em cabeça, ando com umas dores estranhas e visão turva, espero que as drogas que tomei não me desiludam agora... Em quarenta anos nesta vida, nunca tive um mau estar, uma febre que fosse... Nunca percebi porquê... Nem naquela rave em Carcavelos, estive três meses fora, noutra dimensão ou galáxia, sei lá! Mas fora isso, estou descansado.
- Estamos a chegar ao corte para o hospital, é para lá que vamos?
- Está decidido! É mesmo para lá.
...
...
- São oito euros e setenta cêntimos.
- Aqui tem, fique com o troco.
- Obrigado.
(entra no hospital e encontra um amigo, dirige-se a ele)
- Olá rapaz, gosto em ver-te!
- Vítor, não te fazia aqui!
- Tudo bem contigo? Como vai a família, o emprego...
- Assim assim...
- Não queres falar? Estranho... Então, que problemas te trazem aqui?
- Pois... Vim a uma consulta no 5.º piso.
- Na psiquiátrica? Então?
- Problemas com a mulher, pá. As coisas não andavam nada bem, comecei a ir-me abaixo, depressão e afins, agora ando em tratamentos. E tu, para o mesmo piso?
- Não, porque perguntas?
- Com a tua vida louca...
- Umas dores de cabeça e ando a ver mal, de resto tudo bem. E quando tenho problemas para resolver, um psiquiatra é a última pessoa a quem recorro.
- Oh, oh... Então?
- Meto-me num táxi, é mais confortável e sai mais barato.
- Para onde?
- Siga em frente.
...
- Gosto daquela parede.
- Porque diz isso? Nada vejo de especial...
- Está ali.
- E é por isso que gosta dela?
- Sim, por estar ali.
- Podia estar ali um taco de golfe, também gostaria dele?
- Credo, não, que estranho e absurdo!
...
- É sólida.
- Desculpe?
- A parede, é sólida. As do meu apartamento são de pladur, ouve-se tudo, e quando me encosto sinto-as vergarem-se sob o meu peso. É lisa, não é daquelas que arranham quando passamos com a mão. E tem uma cor agradável, amarelo-torrado, faz-me lembrar os pôr-do-sol nas arribas junto ao mar e aquele magnífico ano de 86 em que os vi a todos os de Agosto, um a um, quando ainda morava com a... Importa-se de ir por essa estrada? Não gosto de passar por aquele bairro, quando estava na primária uns miúdos daqui ataram-me a uma lata de lixo e pegaram-lhe fogo. Felizmente, apagaram-no a tempo. Nunca mais fui capaz de olhar para um, traz-me más memórias à cabeça. Apanhe a 2.ª à direita e siga por aquela variante. Por falar em cabeça, ando com umas dores estranhas e visão turva, espero que as drogas que tomei não me desiludam agora... Em quarenta anos nesta vida, nunca tive um mau estar, uma febre que fosse... Nunca percebi porquê... Nem naquela rave em Carcavelos, estive três meses fora, noutra dimensão ou galáxia, sei lá! Mas fora isso, estou descansado.
- Estamos a chegar ao corte para o hospital, é para lá que vamos?
- Está decidido! É mesmo para lá.
...
...
- São oito euros e setenta cêntimos.
- Aqui tem, fique com o troco.
- Obrigado.
(entra no hospital e encontra um amigo, dirige-se a ele)
- Olá rapaz, gosto em ver-te!
- Vítor, não te fazia aqui!
- Tudo bem contigo? Como vai a família, o emprego...
- Assim assim...
- Não queres falar? Estranho... Então, que problemas te trazem aqui?
- Pois... Vim a uma consulta no 5.º piso.
- Na psiquiátrica? Então?
- Problemas com a mulher, pá. As coisas não andavam nada bem, comecei a ir-me abaixo, depressão e afins, agora ando em tratamentos. E tu, para o mesmo piso?
- Não, porque perguntas?
- Com a tua vida louca...
- Umas dores de cabeça e ando a ver mal, de resto tudo bem. E quando tenho problemas para resolver, um psiquiatra é a última pessoa a quem recorro.
- Oh, oh... Então?
- Meto-me num táxi, é mais confortável e sai mais barato.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.
1 comment:
Siga em frente, muito bom! continua
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