Monday, January 11, 2010

Água e Nada

Por cima da janela do meu quarto, um beiral pingava interminavelmente. A água parecia brotar das telhas. Pedi a presença de um pedreiro, para que este pudesse examinar o fenómeno, mas nada resultou desta curiosidade. Telha após telha, madeira após madeira, tudo revirámos. Permaneci na ignorância. Aliás, temo que, depois disso, ambos. Com a agravante do pedreiro, desacreditado com a redução ao nulo da sua potência executória, ter mudado de profissão.
Devido à repetição do gotejamento, um buraco foi sulcado na gravilha que circunda a casa. Não teria mais de vinte centímetros, a gravilha. O som do pingar era estéril e contrastava com a fecundidade da água. Aliás, à força de tanto reencontro entre a água e a gravilha, esta última esverdeou. São as nódoas negras da natureza, disse-me o Cosme. Coloquei no buraco gotejado um olhar e, desafiando a física que nos faz o que o intelecto julga devermos ser, depois um e outro dedo e por fim, todo o eu. Foi assim que me dei com o reduzido tamanho que tinha, medindo alturas com o cadáver de uma formiga (sempre tinha pensado que, tal como os humanos, garantiam e estimavam a última morada dos seus) e um resto de folha seca, agora novamente hidratada. O espaço no sulco era reduzido. Claustrofobizei. Uma gota despedaçou-se contra duas pedras e, ao fazê-lo, senti as ondas da explosão prensar-me as costas e o peito. Livrei-me da calada companhia que tinha e deixei-me levar pelo riacho cujo caudal aumentava.
Surgiu-me pela frente uma maciça parede com um cheiro característico a cal e óleo de linhaça. Bati de frente e raspei pela agreste superfície. Morri.

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