Thursday, January 28, 2010

Um amigo "amigo"

- Aconteceu-me uma horripilância!
- A sério? Daquelas mesmo muito ligeiras? Conta conta!!
- Não me lembro daquela música, que se canta nos anos.
- Aniversários! 'Tás a gozar!
- Juro pelo que há de mais sagrado!
- Juras pelas bolacha-maria-com-manteiga-e-oregãos?
- Juro!
- Juras pela tua alheira?
- Já te disse mais que uma vez, não brinques com coisas sérias!
- Tens razão, desculpa! Como é que isso aconteceu?
- O Daniel faz um jantar de anos amanhã...
- Aniversário.
- Pois, isso. Então eu estava a lavar os dentes depois do almoço e a pensar no que lhe haveria de dar, um cacto ou um edredão cor-de-rosa que vi ali em cima na São. O que achas? Também pensei numa galinha e umas velas, parece qu'ele tem que ir para o Brasil e assim já se ia habituando, diz que lá 'tá um calor daqueles, já me ofereci para lhe levar uns bacalhaus e uns tintos na minha bagagem, mas ele disse que os dias de contrabando já acabaram, cá p'ra mim desde que aquele hamster do miúdo mexicano o cheirou no aeroporto e ele ficou apanhado das costas com o medo, nunca mais foi o mesmo.
- Espera espera espera... (tira um lenço de papel e assoa-se)
- Pois, estava a dizer... Ah, caiu-me um dente e... puff!
- Hum?
- Puff!
- (sai de cena e volta com dois puff's; senta o amigo num e a ele mesmo noutro) A história é assim tão longa?
- "Puff" a música! Desvaneceu na minha cabeça! Já procurei em tudo o que era sítio e nada!
- Ah... e então?
- Então? É óbvio que preciso de a voltar a aprender!
- Ui, isso agora...
- Sim, se puder ser agora... Ou já! Não me importaria que fosse já, ou neste instante. Vá, entretanto ou assim que possível. Na próxima hora, ou ainda hoje, seria confortável.
- Tantas voltas dá o mundo
Que o ontem, o hoje e o amanhã
Me parecem, no fundo
A casca de uma maçã.

Corta corta que corta
Corta em gomos e, na volta
Bem lá dentro, que procura?
O bicho que não cansa e fura.

O bicho escapa
Oh, que desilusão.
Gostaria de o esmagar
E por dentro de um pão.

Wednesday, January 27, 2010

Burlesco?

(dois indivíduos, A e B, entram no palco, sentam-se atrás de outro indivíduo, C, vigiados pelo segurança do espectáculo, D)
A - Burlesco?
B - Será?
A - Com tanta gente?
B - Há limites para uma peça desse género?
A - Hum... o tamanho do palco?
B - Haverá maiores?
A - Quantos conheces?
B - Quantos existem por aí?
A - A quantos já foste?
B - A quantos achas que fui?
A - A quantos serias capaz de ir?
B - Quando começaste a duvidar de mim?
A - Ter-te-ei dado razões para isso?
B - Estarei porventura a não me fazer entender?
A - Estarás a fazer algum tipo de sentido?
B - Tomas-me por um palhaço?
A - Ter-te-ás moldado tão bem a esse papel?
B - Que papel?
A - De uma peça de teatro?
B - Depende, qual é o género?
A - Burlesco?
C - Calem-se aí os filósofos de serviço, quero ver a peça!
...
A - 'Tá um bocado parado, vamos embora?
B - Queres ir?
A - Queres ficar?
B - Queres fazer-me companhia?
A - Porquê, precisas de mim para te explicar a peça, é?
C - Chiça, vão começar de novo?
B - Porquê, estamos a incomodar?
C - O que vos parece?
A - Burlesco?
B - Acalmas-te ou não?
A - Não te pareço calmo?
...
B - Já não queres ir embora?
A - Para que queres saber?
B - Levas-me contigo?
A - Não querias ficar?
B - Um homem não pode mudar de ideias?
A - Quem te disse que eras homem?
...
B - Para onde vais?
A - O que tens a haver com isso?
B - Quem te disse que quero saber?
A - Não acabaste de perguntar?
B - Levar-me-ias até Vilar de Mouros, se fosses para Tavira?
A - Que pergunta é essa?
B - Burlesca?
C - Querem que chame o segurança?
A - Queres levar uma chapada?
C - Querem irritar-me?
B - Queres mesmo que te responda?
C - Querem que repita?
A - Achas que sou surdo?
C - Acham que estou a mentir?
B - Achas que tenho paciência para isto?
A - Achas que me importo?
C - Segurança, pode acompanhá-los à saída?
D - Porque razão o faria?
C - Porque não consigo ver a peça?
D - E porque diz que não consegue vê-la?
C - Porque estes dois gajos não se calam?
D - Mas está a correr tão bem, o público está a adorar, porquê parar agora?
...
B - Achas que ele percebeu que faz parte da peça?
A - Achas que eu sei?
B - Não achas que devias saber?

Sunday, January 24, 2010

Santos, marquises e dentes-de-leão

- Por falar em santos, o vizinho aqui do lado é um desses!
- O Cristóvão? Sabia-o, estava gravado no meu coração. Homem terno, bondoso, conforto dos necessitados, sempre disponível, incansável na acção.
- De nome, Santos é apelido!
- E lidas bem com isso?
- Hã?
- Sabes da última? O vizinho comprou uma televisão, daquelas grandes, assim… assim… coiso! (faz gestos pronunciados a explicar)
- E…
- Deu-me a caixa!
- A caixa? Para que queres a caixa?
- Já te mostro, vou buscá-la! (sai e volta com a caixa) Para uma marquise!
- Marquise? Isso é uma caixa dum LCD!
- Sim, tenho que entrar de lado, mas de resto, super-confortável... Tem um pé-direito altíssimo, linhas direitas, isolamento térmico, impermeabilização, ventilação natural… Sabes o que me agrada mais?
- Que o governo actualize os subsídios de invalidez?
- Não, o cheiro a novo!
- A morar nas traseiras daquele padieiro a que chamam restaurante? Só o nome diz tudo: “A Nova”! Haja alguém que o associe à sócia-gerente! Parece um shar-pei pintado de roxo, cheia de refegos. Podiam chamar-lhe “Diz-que-tem-2-anos-bem-passados-na-guerra-do-ultramar”. E as refeições? Fritos, fritos, fritos… Peixe, batatas, rissóis e pastelinhos de bacalhau e da horta… A esses, também, só lhes falta servir aparas da serração! Até bordas de alguidar me serviram ontem ao almoço, com cascas de tremoço. Tinham dito que aproveitavam bem as sobras, mas assim… Via-se tudo! Ainda se as enrolassem num ovo e numa farinha… E fritas, qu’eles a fritar…! Agora assim, a seco… Sofri horrores! (chora)
- Pronto, calma, já passou… Posso contar-te um segredo? Já pensei em mudar-me para a marquise. E tenho uma vista melhor!
- Pois, roubaste os óculos ao Valério domingo passado, à entrada da missa. O Ivo viu, mas calou. E eu também, ontem ao almoço… (soluços)
- Calma, o homem mau já foi embora, já foi! Onde está? Não está!
- Mil desculpas, caro colega. Fico assim mal do fígado com as preocupações, depois desgoverno-me…
- Pois, tu e o Sócrates… Vamos para a marquise, faço-te um cházinho de dente-de-leão, diz que aumenta o fluxo de bílis e melhora o aproveitamento dos nutrientes.

Idéia original de Fa-z de Conta

Monday, January 11, 2010

R.E.M.

10 minutos. A vela derrete e queima a corda, esta parte e liberta o estore, este abre e deixa a luz entrar, esta entra e acorda-me. O mecanismo sonhado desaparece.

Tempo

Rotação da terra, fases da lua, cera da vela, pingo da água, folhas do calendário, força da mola, carga da pilha, energia do átomo.
Transporto a clave de chuva, aperto-a junto à face e a lágrima cai. Fico atenta à música ao olhar o movimento do seu cair.
Em parceria com Elsa Gonçalves

Tique-taque

De olhar preso ao grupo, sigo as movimentações, aliás, os movimentos espasmódicos de algumas unidades dessa composição. Perco tempo e este zanga-se comigo, pois não posso dele desfrutar. É essa a medida do tempo, a da perda. Bendito relógio. Tique-taque.

Flor

Um miosótis tapou-me a entrada da porta. Não consegui ir trabalhar. Maldita infiltração!

Água e Nada

Por cima da janela do meu quarto, um beiral pingava interminavelmente. A água parecia brotar das telhas. Pedi a presença de um pedreiro, para que este pudesse examinar o fenómeno, mas nada resultou desta curiosidade. Telha após telha, madeira após madeira, tudo revirámos. Permaneci na ignorância. Aliás, temo que, depois disso, ambos. Com a agravante do pedreiro, desacreditado com a redução ao nulo da sua potência executória, ter mudado de profissão.
Devido à repetição do gotejamento, um buraco foi sulcado na gravilha que circunda a casa. Não teria mais de vinte centímetros, a gravilha. O som do pingar era estéril e contrastava com a fecundidade da água. Aliás, à força de tanto reencontro entre a água e a gravilha, esta última esverdeou. São as nódoas negras da natureza, disse-me o Cosme. Coloquei no buraco gotejado um olhar e, desafiando a física que nos faz o que o intelecto julga devermos ser, depois um e outro dedo e por fim, todo o eu. Foi assim que me dei com o reduzido tamanho que tinha, medindo alturas com o cadáver de uma formiga (sempre tinha pensado que, tal como os humanos, garantiam e estimavam a última morada dos seus) e um resto de folha seca, agora novamente hidratada. O espaço no sulco era reduzido. Claustrofobizei. Uma gota despedaçou-se contra duas pedras e, ao fazê-lo, senti as ondas da explosão prensar-me as costas e o peito. Livrei-me da calada companhia que tinha e deixei-me levar pelo riacho cujo caudal aumentava.
Surgiu-me pela frente uma maciça parede com um cheiro característico a cal e óleo de linhaça. Bati de frente e raspei pela agreste superfície. Morri.

Tuesday, January 05, 2010

Redze

(um homem, ajoelhado, reza; outro entra)

- Então, perdeste alguma coisa?
- Não, estou a rezar. Não me interrompas, por favor!
- A rezar? A quê?
- A quê não, a quem!
- A quem? Hein? Então, a quem?
- Ao Lucas!
- Ao Lucas? O do táxi? Porquê... porquê rezar ao Lucas?
- Deixei a minha carteira no táxi dele, rezava que ele percebesse que ela lá está e a apanhasse, antes que outro o fizesse!
- Isso é... estúpido!Então e... rezas, ao Lucas? Nem tu nem ele são... espirituais!
- Li isto na revista "Observe": somos, cada um de nós, antenas cuja amplificação depende da intensidade com que sentimos o que pensamos. Podemos assim comunicar intenções uns com os outros, de cabeça para cabeça. Até à distância. Há mesmo quem diga que é essa a origem de Deus. Imagina: milhões e milhões de outros-como-nós, partilhando uma só vontade, materializando utopias, tornando palpável um futuro construído pela oração! Que maravilhoso mundo novo!
- Hum hum... porreiro! Olha, já lhe enviei um sms, 'tá aí a chegar com a tua carteira.

Monday, January 04, 2010

Verbo "Ter o Verbo"

(dois homens, um com frio e outro com roupa a mais )

- Tenho frio!
- Tenho pena.
- Tenha piedade!
- Tenha paciência.
- Tinha esperança!
- Tinha ilusões.
- Terás o inferno!
- Terás o que és. Que a cólera te aqueça.

Sunday, January 03, 2010

Tempo e Modo

(dois homens, um calmo e outro inquieto)
- Tempo, tanto tempo! Falta-me tanta falta o tempo... especialmente por não o ter para sentir a falta que faz!
- Isso incomoda-te?
- Incomoda, claro que incomoda!
- E o que já fizeste?
- Nada... mas vou fazer! Teoriza comigo: como sabes, não somos assim tão amigos, certo?
- Euh... hum... Certo?
- E cada palavra tua aborrece-me de morte, como sabes!
- Pois, os conhecidos-desde-o-berço-que-te-conhecem-de-ginjeira-e-suportam-todas-as-doideiras-até-mesmo-aquela-do-bidão-de-ouriços-do-mar-e-do-saco-do-Pingo-Doce-com-aguarrás fazem tudo para desgostar.
- É também sabido que, quando experienciamos algo verdadeiramente desagradável, em que mesmo a pele grada e os pêlos virilizam, o tempo estagna e tudo se torna mais... caracólico!
- Começo a sentir uma náusea... espero que seja da alheira. Os enchidos...
- Quando penso no Karaoke do MeteBar, tudo faz sentido.
- Perdi-me. A sério, perdi-me.
- Vítor, dá-me a eternidade: canta para mim.