Tuesday, March 23, 2010

Yo dama, queres mama?

Agora que falo...

Me ponho de galo

E conto histórias

Bazófias, dos dias

Em que Ser e ter

O que comer

Eram estratégias

Para os sobreviventes

Do acaso, os dementes

Marginais, assassinos,

Boémios, valdevinos.

Ironia e sarcasmo

Sacudiam o marasmo

Da pessoa estagnada

Com contos de fada.

Arrisco, na dita

Estória da aflita.

Que o corpo vende

E não compreende

A alternativa

À vida atractiva

Que o dinheiro lhe dá.

“Até já”

E larga a nota,

Saindo pela porta,

Aberta, com v de volta,

Levando a escolta,

“Sr. Doutor, quer recibo?”

Não, e ai do chibo,

Que propuser,

Este dinheiro entrar,

No circuito normal.

Pois todo o mal

Deste mundo profano,

Lugar de engano,

Vem da assimetria,

Daquela quantia,

Que num passe de magia

O rico arrecada,

E o pobre, sem nada,

Fica apertado,

Nem perdido nem achado.

Colorido demais

Na caixa do correio, três mensagens.
Que linguagem obscena, meu Amor!
Sexo é prefixo, galgas as margens,
Invadindo a pátria do destemor.

Às 15, em tua casa, sem outros clientes.
Pago a pronto, antes do acto.
Passo uma borracha sobre o assunto
Antes que cheguemos a vias de facto.

Desapertas o corpete num minuto.
Grito: "Liga!". Pegas no telefone.
Gosto do teu humor, astuto.
Como a dica da "boca no trombone".

Sou cavaleiro, sou corcel,
Minha amazonas excêntrica.
Sou pintor, o meu pincel
traça linhas de vida autêntica.

Exalas, enrubescida,
num torpor violento.
À saliva, enriquecida,
bebo-a. É fermento!

Wednesday, March 17, 2010

Sexo

Sexo:
Repetição sem nexo.

Bi:
Bom começo para tri.

Fobia:
À ausência de fantasia.

Santo:
Lá chegarei em pranto.

Pecador:
Procura ser redentor.

Ilusão:
Sair incólume da perdição.

Grupo:
Na mente sinto estupro.

Bestial:
Hoje, amanhã será banal.

Falo:
De ouvir, apetece dá-lo.

Vagina:
Quero-te, menina.

Sensual:
Pose delico/anormal.

Posição:
Fica melhor no colchão.

Duro:
Modo de pensar obscuro.

Tentação:
Termina na paixão.

Amor:
Começa num fulgor.

Homma

Gosto, desgosto.

Tu queres e eu não posso

Gosto, desgosto,

Suscita-me o oposto.

Esmaga-me a incompreensão da sociedade.

Dá-me a chave do armário, quero sair, sair em liberdade.


Cheio, vazio

A vida por um fio.

Aberto, fechado,

O futuro em branco imaculado.

Desde pequeno que me sinto diferente

Agora grande, és tu que não me consideras “gente”.


P’ra escolher,

Com quem me comprometer.

Se para eles é desilusão,

Para mim é, de facto, uma União.


E tu, não concordas?

Depende de como isto abordas.

“Todos diferentes, todos iguais”, é gritado!

Mas no que toca ao Amor, apenas eu estou errado.


Homossexualidade

Thursday, March 04, 2010

Venha ver, venha ver

Venha ver, venha ver,
O que por aí se passa.
Como num pacote de más escolhas,
Se põe um país na desgraça.

"Na desgraça?", pergunta você,
"Nem tudo é mau e diferente,
O que vivemos não é mais,
Que fruto de má semente!"

Má semente que plantada,
Tratada foi com leviandade.
O Povo anda ausente,
Age como cega manada.

Manada forte e vibrante
Procura oásis saciador,
Cujo caminho seja apontado
Por sensato pastor.

Pastor que leia os sinais,
De um tempo que clareia.
Tirai vendas, abri os olhos.
Senti força na veia.

Na veia onde corre
O sangue de quem não esquece,
Um melhor futuro prometido
E a felicidade que merece.

Taxicótico

- Táxi!
- Para onde?
- Siga em frente.
...
- Gosto daquela parede.
- Porque diz isso? Nada vejo de especial...
- Está ali.
- E é por isso que gosta dela?
- Sim, por estar ali.
- Podia estar ali um taco de golfe, também gostaria dele?
- Credo, não, que estranho e absurdo!
...
- É sólida.
- Desculpe?
- A parede, é sólida. As do meu apartamento são de pladur, ouve-se tudo, e quando me encosto sinto-as vergarem-se sob o meu peso. É lisa, não é daquelas que arranham quando passamos com a mão. E tem uma cor agradável, amarelo-torrado, faz-me lembrar os pôr-do-sol nas arribas junto ao mar e aquele magnífico ano de 86 em que os vi a todos os de Agosto, um a um, quando ainda morava com a... Importa-se de ir por essa estrada? Não gosto de passar por aquele bairro, quando estava na primária uns miúdos daqui ataram-me a uma lata de lixo e pegaram-lhe fogo. Felizmente, apagaram-no a tempo. Nunca mais fui capaz de olhar para um, traz-me más memórias à cabeça. Apanhe a 2.ª à direita e siga por aquela variante. Por falar em cabeça, ando com umas dores estranhas e visão turva, espero que as drogas que tomei não me desiludam agora... Em quarenta anos nesta vida, nunca tive um mau estar, uma febre que fosse... Nunca percebi porquê... Nem naquela rave em Carcavelos, estive três meses fora, noutra dimensão ou galáxia, sei lá! Mas fora isso, estou descansado.
- Estamos a chegar ao corte para o hospital, é para lá que vamos?
- Está decidido! É mesmo para lá.
...
...
- São oito euros e setenta cêntimos.
- Aqui tem, fique com o troco.
- Obrigado.
(entra no hospital e encontra um amigo, dirige-se a ele)
- Olá rapaz, gosto em ver-te!
- Vítor, não te fazia aqui!
- Tudo bem contigo? Como vai a família, o emprego...
- Assim assim...
- Não queres falar? Estranho... Então, que problemas te trazem aqui?
- Pois... Vim a uma consulta no 5.º piso.
- Na psiquiátrica? Então?
- Problemas com a mulher, pá. As coisas não andavam nada bem, comecei a ir-me abaixo, depressão e afins, agora ando em tratamentos. E tu, para o mesmo piso?
- Não, porque perguntas?
- Com a tua vida louca...
- Umas dores de cabeça e ando a ver mal, de resto tudo bem. E quando tenho problemas para resolver, um psiquiatra é a última pessoa a quem recorro.
- Oh, oh... Então?
- Meto-me num táxi, é mais confortável e sai mais barato.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.

O meu primeiro voto

- Há muitos anos atrás, vivia um menino na companhia dos seus pais, família austera, gente de muito trabalho e fome, mas de poucas palavras, que percorria como formigas os campos onde trabalhava e acudia religiosamente ao primeiro badalar do sino da igreja, rezando com fervor incomum.
- É uma história ou uma parábola?
- Hum... depende. Se inflectires, procurando dobrar as tuas certezas à mensagem implícita, talvez lhe possamos atribuir a designação de parábola. Quanto às histórias, são como os diamantes. ajudam a cortar as densas camadas da ilusão até atingirmos a natureza das coisas, dos objectos, das pessoas.
- Não quererás dizer História? É que as histórias que aí se contam sobre o Ti André do Fundão, que (diz-se) era lobisomem, não se assemelham muito a uma verdade verdadinha verdadeira...
- Não me interrompas!
- Desculpa. Então... a decisão é minha?
- De certa forma, sim.
- Bolas! Não aguento esta responsabilidade, sou tão novo, nunca me atribuíram tal tarefa, não sei que mais fazer, liberta-me deste fardo que tanta infelicidade me traz!
- Hum... Pois. O menino cresceu sem nunca se sentar num banco de escola e da doutrina escolar nada sabia. Mas quando cravava as mãos na terra, levantava-as e escutava o que ela tinha para lhe dizer... e ela falava-lhe.
- Ela quem?
- O substantivo anterior mais próximo, a "terra".
- Ah... Dizia-lhe onde doía?
- Perguntavam-lhe como o fazia, encolhia os ombros, tímido. Diziam ter o dom de reconhecer a essência do que tocava, sentir-lhes as mudanças, perscrutar a alma. Aquele pacato ser de palmo e meio sentia o que palavras ou construções frásicas jamais conseguiriam descrever.
- Também fazia malabarismos com espigas de milho-rei?
- Não, mas evaporava as moléstias do campo quando a estes cantava, assentava o lodo fétido das águas estagnadas e à sua volta tudo crescia, viçoso, como se a própria Vida lhe pertencesse.
- Essas histórias do misticismo celta parecem-me vagas demais para delas sacar algum proveito... Falas bem, sacerdote do profano!
- É apenas uma história-barra-parábola, mas podia muito bem relatar a vida de qualquer um dos miúdos desta terra!
- Pois, tirando o maravilhoso e fantástico inexplicável...sim!
- Continuarei então. Um dia, o menino-metamorfoseado-em-homem decidiu conhecer o mundo que se escondia para lá dos pinheiros que rematavam o horizonte visível do alto da torre da igreja. Pegou numa pequena mala, nela colocou alguma roupa e um pouco de terra dentro de um frasco de café e partiu. Admirava-se a cada instante com...
- Essa história-barra-parábola é comprida, podes encurtar?
- hum... posso, até nem tenho grande jeito para isto.
- E como acaba?
- O menino-metamorfoseado-em-homem chegou à grande cidade. Arranjou trabalho como jardineiro do Jardim Municipal e a todos maravilhava com o desempenho da profissão. Já podia também votar, mas não sabia como, pois era difícil cravar as mãos nas opiniões nos candidatos ou cheirar-lhes as emoções à distância. Faltava-lhe por isso consciência da decisão. Então votou na bandeira mais bonita.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.

Monday, February 15, 2010

Envelopes? Que envelopes?

(homem 1 entra em cena, homem 2 no chão, com binóculos)
- Então? O juiz não to proibiu?
- ...
- Santos, estás bem?
- Desculpa, estava ausente.
- Id, ego e superego em confronto? De binóculos a observar o infinito... Quem terá ganho?
- Não é o infinito, é um grupo de pessoas.
- Hum... Ego, és tu?
- E era com prazer que o fazia... Não fosse a interrupção e estaria mesmo feliz!
- Hum... acho que me vou arrepender, mas... Quem era mesmo que observavas?
- Aquele grupo de engravatados, lá ao fundo...!
- Aqueles todos ao monte? São tantos!...
- E mais ao centro, aqueles que até são parecidos uns com os outros, vês?
- Os de gravata laranja e rosa?
- Sim, um pouco à esquerda dos de gravata azul...
- O que têm? Aliás, explica-me primeiro o que estão ali todos a fazer. Parece que é pose para a fotografia...
- E é! A "PIC" está a fazer um documentário sobre "O Estado". Vão tirar umas fotos, cada uma das pessoas representa um assento actual na Assembleia da República. As gravatas e as respectivas cores simbolizam os partidos.
- Se eu soubesse, tinha deixado crescer o bigode, feito dieta, ido ao baú buscar a roupada velha, vindo mais cedo com a minha canalha, trazido a cesta com a merenda e acampado naquele sítio!
- Para te convidarem para o documentário?
- Não, para os injuriar, detesto aquela gentalha. O país não está mau, mas podia estar melhor! Muito melhor!
- E não sabes tu a melhor... Adivinha quem fez os fatos para o acontecimento?
- Tu?
- Acertaste!
- Ira! Canalha! Um povo inteiro a sofrer e tu... foste obrigado, diz-me que foste obrigado!
- Nada disso!
- Tiro no coração! Compactuas com o poder instituído? Esses malandros a irem-nos aos bolsos, a lixarem-nos por todos os lados...! É obras inflaccionadas, impostos para os mais pobres, leis à medida para os amigos, favores comprados, dinheiro mal distribuído, empresas semipúblicóprivadasda treta... Recebeste bom dinheiro!
- Não, ofereci os fatos à produção.
- Apoplexia!! Mata-me aqui! Toda uma história de sofrimento relampeja diante de mim. Renegar-te-ei toda a minha vida! Direi "Santos, Santos quem?"
- Acalma-te...
- "Acalma-te"?!?! É só isso que dizes?
(estende-lhe os binóculos?
- Não vês nada de diferente?
- Qualquer coisa ali de lado, nos gajos que estão ao meio, não percebo bem...
- Para que se assemelhasse o mais possível à realidade, cosi envelopes azuis nos bolsos dos gajos do costume.


Thursday, January 28, 2010

Um amigo "amigo"

- Aconteceu-me uma horripilância!
- A sério? Daquelas mesmo muito ligeiras? Conta conta!!
- Não me lembro daquela música, que se canta nos anos.
- Aniversários! 'Tás a gozar!
- Juro pelo que há de mais sagrado!
- Juras pelas bolacha-maria-com-manteiga-e-oregãos?
- Juro!
- Juras pela tua alheira?
- Já te disse mais que uma vez, não brinques com coisas sérias!
- Tens razão, desculpa! Como é que isso aconteceu?
- O Daniel faz um jantar de anos amanhã...
- Aniversário.
- Pois, isso. Então eu estava a lavar os dentes depois do almoço e a pensar no que lhe haveria de dar, um cacto ou um edredão cor-de-rosa que vi ali em cima na São. O que achas? Também pensei numa galinha e umas velas, parece qu'ele tem que ir para o Brasil e assim já se ia habituando, diz que lá 'tá um calor daqueles, já me ofereci para lhe levar uns bacalhaus e uns tintos na minha bagagem, mas ele disse que os dias de contrabando já acabaram, cá p'ra mim desde que aquele hamster do miúdo mexicano o cheirou no aeroporto e ele ficou apanhado das costas com o medo, nunca mais foi o mesmo.
- Espera espera espera... (tira um lenço de papel e assoa-se)
- Pois, estava a dizer... Ah, caiu-me um dente e... puff!
- Hum?
- Puff!
- (sai de cena e volta com dois puff's; senta o amigo num e a ele mesmo noutro) A história é assim tão longa?
- "Puff" a música! Desvaneceu na minha cabeça! Já procurei em tudo o que era sítio e nada!
- Ah... e então?
- Então? É óbvio que preciso de a voltar a aprender!
- Ui, isso agora...
- Sim, se puder ser agora... Ou já! Não me importaria que fosse já, ou neste instante. Vá, entretanto ou assim que possível. Na próxima hora, ou ainda hoje, seria confortável.
- Tantas voltas dá o mundo
Que o ontem, o hoje e o amanhã
Me parecem, no fundo
A casca de uma maçã.

Corta corta que corta
Corta em gomos e, na volta
Bem lá dentro, que procura?
O bicho que não cansa e fura.

O bicho escapa
Oh, que desilusão.
Gostaria de o esmagar
E por dentro de um pão.

Wednesday, January 27, 2010

Burlesco?

(dois indivíduos, A e B, entram no palco, sentam-se atrás de outro indivíduo, C, vigiados pelo segurança do espectáculo, D)
A - Burlesco?
B - Será?
A - Com tanta gente?
B - Há limites para uma peça desse género?
A - Hum... o tamanho do palco?
B - Haverá maiores?
A - Quantos conheces?
B - Quantos existem por aí?
A - A quantos já foste?
B - A quantos achas que fui?
A - A quantos serias capaz de ir?
B - Quando começaste a duvidar de mim?
A - Ter-te-ei dado razões para isso?
B - Estarei porventura a não me fazer entender?
A - Estarás a fazer algum tipo de sentido?
B - Tomas-me por um palhaço?
A - Ter-te-ás moldado tão bem a esse papel?
B - Que papel?
A - De uma peça de teatro?
B - Depende, qual é o género?
A - Burlesco?
C - Calem-se aí os filósofos de serviço, quero ver a peça!
...
A - 'Tá um bocado parado, vamos embora?
B - Queres ir?
A - Queres ficar?
B - Queres fazer-me companhia?
A - Porquê, precisas de mim para te explicar a peça, é?
C - Chiça, vão começar de novo?
B - Porquê, estamos a incomodar?
C - O que vos parece?
A - Burlesco?
B - Acalmas-te ou não?
A - Não te pareço calmo?
...
B - Já não queres ir embora?
A - Para que queres saber?
B - Levas-me contigo?
A - Não querias ficar?
B - Um homem não pode mudar de ideias?
A - Quem te disse que eras homem?
...
B - Para onde vais?
A - O que tens a haver com isso?
B - Quem te disse que quero saber?
A - Não acabaste de perguntar?
B - Levar-me-ias até Vilar de Mouros, se fosses para Tavira?
A - Que pergunta é essa?
B - Burlesca?
C - Querem que chame o segurança?
A - Queres levar uma chapada?
C - Querem irritar-me?
B - Queres mesmo que te responda?
C - Querem que repita?
A - Achas que sou surdo?
C - Acham que estou a mentir?
B - Achas que tenho paciência para isto?
A - Achas que me importo?
C - Segurança, pode acompanhá-los à saída?
D - Porque razão o faria?
C - Porque não consigo ver a peça?
D - E porque diz que não consegue vê-la?
C - Porque estes dois gajos não se calam?
D - Mas está a correr tão bem, o público está a adorar, porquê parar agora?
...
B - Achas que ele percebeu que faz parte da peça?
A - Achas que eu sei?
B - Não achas que devias saber?

Sunday, January 24, 2010

Santos, marquises e dentes-de-leão

- Por falar em santos, o vizinho aqui do lado é um desses!
- O Cristóvão? Sabia-o, estava gravado no meu coração. Homem terno, bondoso, conforto dos necessitados, sempre disponível, incansável na acção.
- De nome, Santos é apelido!
- E lidas bem com isso?
- Hã?
- Sabes da última? O vizinho comprou uma televisão, daquelas grandes, assim… assim… coiso! (faz gestos pronunciados a explicar)
- E…
- Deu-me a caixa!
- A caixa? Para que queres a caixa?
- Já te mostro, vou buscá-la! (sai e volta com a caixa) Para uma marquise!
- Marquise? Isso é uma caixa dum LCD!
- Sim, tenho que entrar de lado, mas de resto, super-confortável... Tem um pé-direito altíssimo, linhas direitas, isolamento térmico, impermeabilização, ventilação natural… Sabes o que me agrada mais?
- Que o governo actualize os subsídios de invalidez?
- Não, o cheiro a novo!
- A morar nas traseiras daquele padieiro a que chamam restaurante? Só o nome diz tudo: “A Nova”! Haja alguém que o associe à sócia-gerente! Parece um shar-pei pintado de roxo, cheia de refegos. Podiam chamar-lhe “Diz-que-tem-2-anos-bem-passados-na-guerra-do-ultramar”. E as refeições? Fritos, fritos, fritos… Peixe, batatas, rissóis e pastelinhos de bacalhau e da horta… A esses, também, só lhes falta servir aparas da serração! Até bordas de alguidar me serviram ontem ao almoço, com cascas de tremoço. Tinham dito que aproveitavam bem as sobras, mas assim… Via-se tudo! Ainda se as enrolassem num ovo e numa farinha… E fritas, qu’eles a fritar…! Agora assim, a seco… Sofri horrores! (chora)
- Pronto, calma, já passou… Posso contar-te um segredo? Já pensei em mudar-me para a marquise. E tenho uma vista melhor!
- Pois, roubaste os óculos ao Valério domingo passado, à entrada da missa. O Ivo viu, mas calou. E eu também, ontem ao almoço… (soluços)
- Calma, o homem mau já foi embora, já foi! Onde está? Não está!
- Mil desculpas, caro colega. Fico assim mal do fígado com as preocupações, depois desgoverno-me…
- Pois, tu e o Sócrates… Vamos para a marquise, faço-te um cházinho de dente-de-leão, diz que aumenta o fluxo de bílis e melhora o aproveitamento dos nutrientes.

Idéia original de Fa-z de Conta

Monday, January 11, 2010

R.E.M.

10 minutos. A vela derrete e queima a corda, esta parte e liberta o estore, este abre e deixa a luz entrar, esta entra e acorda-me. O mecanismo sonhado desaparece.

Tempo

Rotação da terra, fases da lua, cera da vela, pingo da água, folhas do calendário, força da mola, carga da pilha, energia do átomo.
Transporto a clave de chuva, aperto-a junto à face e a lágrima cai. Fico atenta à música ao olhar o movimento do seu cair.
Em parceria com Elsa Gonçalves

Tique-taque

De olhar preso ao grupo, sigo as movimentações, aliás, os movimentos espasmódicos de algumas unidades dessa composição. Perco tempo e este zanga-se comigo, pois não posso dele desfrutar. É essa a medida do tempo, a da perda. Bendito relógio. Tique-taque.

Flor

Um miosótis tapou-me a entrada da porta. Não consegui ir trabalhar. Maldita infiltração!

Água e Nada

Por cima da janela do meu quarto, um beiral pingava interminavelmente. A água parecia brotar das telhas. Pedi a presença de um pedreiro, para que este pudesse examinar o fenómeno, mas nada resultou desta curiosidade. Telha após telha, madeira após madeira, tudo revirámos. Permaneci na ignorância. Aliás, temo que, depois disso, ambos. Com a agravante do pedreiro, desacreditado com a redução ao nulo da sua potência executória, ter mudado de profissão.
Devido à repetição do gotejamento, um buraco foi sulcado na gravilha que circunda a casa. Não teria mais de vinte centímetros, a gravilha. O som do pingar era estéril e contrastava com a fecundidade da água. Aliás, à força de tanto reencontro entre a água e a gravilha, esta última esverdeou. São as nódoas negras da natureza, disse-me o Cosme. Coloquei no buraco gotejado um olhar e, desafiando a física que nos faz o que o intelecto julga devermos ser, depois um e outro dedo e por fim, todo o eu. Foi assim que me dei com o reduzido tamanho que tinha, medindo alturas com o cadáver de uma formiga (sempre tinha pensado que, tal como os humanos, garantiam e estimavam a última morada dos seus) e um resto de folha seca, agora novamente hidratada. O espaço no sulco era reduzido. Claustrofobizei. Uma gota despedaçou-se contra duas pedras e, ao fazê-lo, senti as ondas da explosão prensar-me as costas e o peito. Livrei-me da calada companhia que tinha e deixei-me levar pelo riacho cujo caudal aumentava.
Surgiu-me pela frente uma maciça parede com um cheiro característico a cal e óleo de linhaça. Bati de frente e raspei pela agreste superfície. Morri.

Tuesday, January 05, 2010

Redze

(um homem, ajoelhado, reza; outro entra)

- Então, perdeste alguma coisa?
- Não, estou a rezar. Não me interrompas, por favor!
- A rezar? A quê?
- A quê não, a quem!
- A quem? Hein? Então, a quem?
- Ao Lucas!
- Ao Lucas? O do táxi? Porquê... porquê rezar ao Lucas?
- Deixei a minha carteira no táxi dele, rezava que ele percebesse que ela lá está e a apanhasse, antes que outro o fizesse!
- Isso é... estúpido!Então e... rezas, ao Lucas? Nem tu nem ele são... espirituais!
- Li isto na revista "Observe": somos, cada um de nós, antenas cuja amplificação depende da intensidade com que sentimos o que pensamos. Podemos assim comunicar intenções uns com os outros, de cabeça para cabeça. Até à distância. Há mesmo quem diga que é essa a origem de Deus. Imagina: milhões e milhões de outros-como-nós, partilhando uma só vontade, materializando utopias, tornando palpável um futuro construído pela oração! Que maravilhoso mundo novo!
- Hum hum... porreiro! Olha, já lhe enviei um sms, 'tá aí a chegar com a tua carteira.

Monday, January 04, 2010

Verbo "Ter o Verbo"

(dois homens, um com frio e outro com roupa a mais )

- Tenho frio!
- Tenho pena.
- Tenha piedade!
- Tenha paciência.
- Tinha esperança!
- Tinha ilusões.
- Terás o inferno!
- Terás o que és. Que a cólera te aqueça.

Sunday, January 03, 2010

Tempo e Modo

(dois homens, um calmo e outro inquieto)
- Tempo, tanto tempo! Falta-me tanta falta o tempo... especialmente por não o ter para sentir a falta que faz!
- Isso incomoda-te?
- Incomoda, claro que incomoda!
- E o que já fizeste?
- Nada... mas vou fazer! Teoriza comigo: como sabes, não somos assim tão amigos, certo?
- Euh... hum... Certo?
- E cada palavra tua aborrece-me de morte, como sabes!
- Pois, os conhecidos-desde-o-berço-que-te-conhecem-de-ginjeira-e-suportam-todas-as-doideiras-até-mesmo-aquela-do-bidão-de-ouriços-do-mar-e-do-saco-do-Pingo-Doce-com-aguarrás fazem tudo para desgostar.
- É também sabido que, quando experienciamos algo verdadeiramente desagradável, em que mesmo a pele grada e os pêlos virilizam, o tempo estagna e tudo se torna mais... caracólico!
- Começo a sentir uma náusea... espero que seja da alheira. Os enchidos...
- Quando penso no Karaoke do MeteBar, tudo faz sentido.
- Perdi-me. A sério, perdi-me.
- Vítor, dá-me a eternidade: canta para mim.