O sacho cavou a terra uma vez mais.
- A última!
, esperei. Desde a primeira, a repetitiva violência. Uma rotação lateral, braços atrás arremessados, corpo tensionado em arco, catapulta pronta a disparar. Um golpe seco. Pé firme no solo, peso transferido, puxar esforçado.
- Odeio esta terra!...
Novamente a rotação, equilibrio, transporte, esforço de horas. Horas. Prestes a terminar.
Porquê o esforço? Porque quero enterrar algo. Quero não, devo. O objecto não é tão grande quanto poderíamos pensar. Mas a identidade, os anos a dois, tornam-no desmesurado.
Ajeito o corpo na última morada e penso em algo para dizer. Só me vêm queixas das hora que passarei a acamar a tonelada de terra que desacamei desde à horas atrás. Tento recordar-me porquê o fiz.
*Bairro à meia luz, numa noite de Outono. A imagem perpassa a janela de uma garagem, revelando a cena de morte.*
As lágrimas e a respiração meia suspensa acompanharam-me desde que que os nossos olhares se cuzaram, prostrado ele no chão da garagem. Agonizante a passividade da morte. Morrer lentamente é cruel, mas permite-nos uma ultima purificação de alma. Torna-a menos morte. E menos vida. Estamos suspensos entre dois mundos, aos quais não pertencemos já, num jogo de corda com o Anjo da Morte.
Balbuciava entre brotejos de sangue que queria ajuda, mas... quem era eu para lha dar? Alentar a pessoa em último sofrimento, não me parecia natural. Sentir-me-ia menos responsável? Menos humano? Não me tinha preparado isto, tudo se passou tão rapidamente.. Esperei que a respiração acalmasse, mas tornou-se mais grotesca, gutural, hesitante. Creio que se afogou no próprio sangue. Os olhos fitavam o teto da garagem. Agarrei com mais força a faca. Raquel não a soltou.
Chorava. Bati-lhe uma vez mais. Desta, os seus olhos enfrentaram-me. Um leve terror invadiu-me e desfaleci por instantes: seria o próximo a cair banhado em sangue? Bati-lhe de novo, com o verso da mão. Senti que a equilibraria com este artifício. Resultou. Porque foi inesperado, ou demasido forte, pegou na minha mão e entregou-me a lâmina maldita.
Vesti o oleado marinho e coloquei as botas de borracha. Raquel olhava-me, já dentro do carro. Chispava ódio. Porque insistiria em me olhar daquela forma, tão amargamente tensa?
Porquê o esforço? Porque quero enterrar algo. Quero não, devo. O objecto não é tão grande quanto poderíamos pensar. Mas a identidade, os anos a dois, tornam-no desmesurado.
Ajeito o corpo na última morada e penso em algo para dizer. Só me vêm queixas das hora que passarei a acamar a tonelada de terra que desacamei desde à horas atrás. Tento recordar-me porquê o fiz.
*Bairro à meia luz, numa noite de Outono. A imagem perpassa a janela de uma garagem, revelando a cena de morte.*
As lágrimas e a respiração meia suspensa acompanharam-me desde que que os nossos olhares se cuzaram, prostrado ele no chão da garagem. Agonizante a passividade da morte. Morrer lentamente é cruel, mas permite-nos uma ultima purificação de alma. Torna-a menos morte. E menos vida. Estamos suspensos entre dois mundos, aos quais não pertencemos já, num jogo de corda com o Anjo da Morte.
Balbuciava entre brotejos de sangue que queria ajuda, mas... quem era eu para lha dar? Alentar a pessoa em último sofrimento, não me parecia natural. Sentir-me-ia menos responsável? Menos humano? Não me tinha preparado isto, tudo se passou tão rapidamente.. Esperei que a respiração acalmasse, mas tornou-se mais grotesca, gutural, hesitante. Creio que se afogou no próprio sangue. Os olhos fitavam o teto da garagem. Agarrei com mais força a faca. Raquel não a soltou.
Chorava. Bati-lhe uma vez mais. Desta, os seus olhos enfrentaram-me. Um leve terror invadiu-me e desfaleci por instantes: seria o próximo a cair banhado em sangue? Bati-lhe de novo, com o verso da mão. Senti que a equilibraria com este artifício. Resultou. Porque foi inesperado, ou demasido forte, pegou na minha mão e entregou-me a lâmina maldita.
Vesti o oleado marinho e coloquei as botas de borracha. Raquel olhava-me, já dentro do carro. Chispava ódio. Porque insistiria em me olhar daquela forma, tão amargamente tensa?
- Estás bem?
Respondeu, mas não percebi o quê. A frágil e desesperada voz gerou um conflito na minha razão.
*Sobre a sepultura improvisada, Raquel e Mário bebem.*
- E agora, Raquel?
- E agora o quê, Mário? (responde sarcasticamente Raquel). E agora o quê, Mário? Acreditas ser isto parte do meu plano, Mário?
- O tempo finou para o Rui. Melhor, finaste-lhe o tempo. Porquê? Como chegámos aqui? Porque me chamaste?
- Mário, Mário, Mário... A faca, onde está?
Estremeci com a pergunta. Raquel é capaz de tudo para apagar uma realidade inconveniente, inclusive a existencia e a memória de quem foi tudo num tempo recente: amigo, amante, confidente, traidor...
- A faca não existe mais neste mundo, Raquel. Vais matar-me também? Uma última partilha com o Rui, com o tanto que nos demos em vida. Deverias tê-lo feito enquanto a cova capacitava dois corpos.
- Não, Mário, não planejei a tua partida. Deixa-me pensar. Devíamos plantar azevinho em cima da campa.