- Há muitos anos atrás, vivia um menino na companhia dos seus pais, família austera, gente de muito trabalho e fome, mas de poucas palavras, que percorria como formigas os campos onde trabalhava e acudia religiosamente ao primeiro badalar do sino da igreja, rezando com fervor incomum.
- É uma história ou uma parábola?
- Hum... depende. Se inflectires, procurando dobrar as tuas certezas à mensagem implícita, talvez lhe possamos atribuir a designação de parábola. Quanto às histórias, são como os diamantes. ajudam a cortar as densas camadas da ilusão até atingirmos a natureza das coisas, dos objectos, das pessoas.
- Não quererás dizer História? É que as histórias que aí se contam sobre o Ti André do Fundão, que (diz-se) era lobisomem, não se assemelham muito a uma verdade verdadinha verdadeira...
- Não me interrompas!
- Desculpa. Então... a decisão é minha?
- De certa forma, sim.
- Bolas! Não aguento esta responsabilidade, sou tão novo, nunca me atribuíram tal tarefa, não sei que mais fazer, liberta-me deste fardo que tanta infelicidade me traz!
- Hum... Pois. O menino cresceu sem nunca se sentar num banco de escola e da doutrina escolar nada sabia. Mas quando cravava as mãos na terra, levantava-as e escutava o que ela tinha para lhe dizer... e ela falava-lhe.
- Ela quem?
- O substantivo anterior mais próximo, a "terra".
- Ah... Dizia-lhe onde doía?
- Perguntavam-lhe como o fazia, encolhia os ombros, tímido. Diziam ter o dom de reconhecer a essência do que tocava, sentir-lhes as mudanças, perscrutar a alma. Aquele pacato ser de palmo e meio sentia o que palavras ou construções frásicas jamais conseguiriam descrever.
- Também fazia malabarismos com espigas de milho-rei?
- Não, mas evaporava as moléstias do campo quando a estes cantava, assentava o lodo fétido das águas estagnadas e à sua volta tudo crescia, viçoso, como se a própria Vida lhe pertencesse.
- Essas histórias do misticismo celta parecem-me vagas demais para delas sacar algum proveito... Falas bem, sacerdote do profano!
- É apenas uma história-barra-parábola, mas podia muito bem relatar a vida de qualquer um dos miúdos desta terra!
- Pois, tirando o maravilhoso e fantástico inexplicável...sim!
- Continuarei então. Um dia, o menino-metamorfoseado-em-homem decidiu conhecer o mundo que se escondia para lá dos pinheiros que rematavam o horizonte visível do alto da torre da igreja. Pegou numa pequena mala, nela colocou alguma roupa e um pouco de terra dentro de um frasco de café e partiu. Admirava-se a cada instante com...
- Essa história-barra-parábola é comprida, podes encurtar?
- hum... posso, até nem tenho grande jeito para isto.
- E como acaba?
- O menino-metamorfoseado-em-homem chegou à grande cidade. Arranjou trabalho como jardineiro do Jardim Municipal e a todos maravilhava com o desempenho da profissão. Já podia também votar, mas não sabia como, pois era difícil cravar as mãos nas opiniões nos candidatos ou cheirar-lhes as emoções à distância. Faltava-lhe por isso consciência da decisão. Então votou na bandeira mais bonita.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.