Tuesday, March 23, 2010

Yo dama, queres mama?

Agora que falo...

Me ponho de galo

E conto histórias

Bazófias, dos dias

Em que Ser e ter

O que comer

Eram estratégias

Para os sobreviventes

Do acaso, os dementes

Marginais, assassinos,

Boémios, valdevinos.

Ironia e sarcasmo

Sacudiam o marasmo

Da pessoa estagnada

Com contos de fada.

Arrisco, na dita

Estória da aflita.

Que o corpo vende

E não compreende

A alternativa

À vida atractiva

Que o dinheiro lhe dá.

“Até já”

E larga a nota,

Saindo pela porta,

Aberta, com v de volta,

Levando a escolta,

“Sr. Doutor, quer recibo?”

Não, e ai do chibo,

Que propuser,

Este dinheiro entrar,

No circuito normal.

Pois todo o mal

Deste mundo profano,

Lugar de engano,

Vem da assimetria,

Daquela quantia,

Que num passe de magia

O rico arrecada,

E o pobre, sem nada,

Fica apertado,

Nem perdido nem achado.

Colorido demais

Na caixa do correio, três mensagens.
Que linguagem obscena, meu Amor!
Sexo é prefixo, galgas as margens,
Invadindo a pátria do destemor.

Às 15, em tua casa, sem outros clientes.
Pago a pronto, antes do acto.
Passo uma borracha sobre o assunto
Antes que cheguemos a vias de facto.

Desapertas o corpete num minuto.
Grito: "Liga!". Pegas no telefone.
Gosto do teu humor, astuto.
Como a dica da "boca no trombone".

Sou cavaleiro, sou corcel,
Minha amazonas excêntrica.
Sou pintor, o meu pincel
traça linhas de vida autêntica.

Exalas, enrubescida,
num torpor violento.
À saliva, enriquecida,
bebo-a. É fermento!

Wednesday, March 17, 2010

Sexo

Sexo:
Repetição sem nexo.

Bi:
Bom começo para tri.

Fobia:
À ausência de fantasia.

Santo:
Lá chegarei em pranto.

Pecador:
Procura ser redentor.

Ilusão:
Sair incólume da perdição.

Grupo:
Na mente sinto estupro.

Bestial:
Hoje, amanhã será banal.

Falo:
De ouvir, apetece dá-lo.

Vagina:
Quero-te, menina.

Sensual:
Pose delico/anormal.

Posição:
Fica melhor no colchão.

Duro:
Modo de pensar obscuro.

Tentação:
Termina na paixão.

Amor:
Começa num fulgor.

Homma

Gosto, desgosto.

Tu queres e eu não posso

Gosto, desgosto,

Suscita-me o oposto.

Esmaga-me a incompreensão da sociedade.

Dá-me a chave do armário, quero sair, sair em liberdade.


Cheio, vazio

A vida por um fio.

Aberto, fechado,

O futuro em branco imaculado.

Desde pequeno que me sinto diferente

Agora grande, és tu que não me consideras “gente”.


P’ra escolher,

Com quem me comprometer.

Se para eles é desilusão,

Para mim é, de facto, uma União.


E tu, não concordas?

Depende de como isto abordas.

“Todos diferentes, todos iguais”, é gritado!

Mas no que toca ao Amor, apenas eu estou errado.


Homossexualidade

Thursday, March 04, 2010

Venha ver, venha ver

Venha ver, venha ver,
O que por aí se passa.
Como num pacote de más escolhas,
Se põe um país na desgraça.

"Na desgraça?", pergunta você,
"Nem tudo é mau e diferente,
O que vivemos não é mais,
Que fruto de má semente!"

Má semente que plantada,
Tratada foi com leviandade.
O Povo anda ausente,
Age como cega manada.

Manada forte e vibrante
Procura oásis saciador,
Cujo caminho seja apontado
Por sensato pastor.

Pastor que leia os sinais,
De um tempo que clareia.
Tirai vendas, abri os olhos.
Senti força na veia.

Na veia onde corre
O sangue de quem não esquece,
Um melhor futuro prometido
E a felicidade que merece.

Taxicótico

- Táxi!
- Para onde?
- Siga em frente.
...
- Gosto daquela parede.
- Porque diz isso? Nada vejo de especial...
- Está ali.
- E é por isso que gosta dela?
- Sim, por estar ali.
- Podia estar ali um taco de golfe, também gostaria dele?
- Credo, não, que estranho e absurdo!
...
- É sólida.
- Desculpe?
- A parede, é sólida. As do meu apartamento são de pladur, ouve-se tudo, e quando me encosto sinto-as vergarem-se sob o meu peso. É lisa, não é daquelas que arranham quando passamos com a mão. E tem uma cor agradável, amarelo-torrado, faz-me lembrar os pôr-do-sol nas arribas junto ao mar e aquele magnífico ano de 86 em que os vi a todos os de Agosto, um a um, quando ainda morava com a... Importa-se de ir por essa estrada? Não gosto de passar por aquele bairro, quando estava na primária uns miúdos daqui ataram-me a uma lata de lixo e pegaram-lhe fogo. Felizmente, apagaram-no a tempo. Nunca mais fui capaz de olhar para um, traz-me más memórias à cabeça. Apanhe a 2.ª à direita e siga por aquela variante. Por falar em cabeça, ando com umas dores estranhas e visão turva, espero que as drogas que tomei não me desiludam agora... Em quarenta anos nesta vida, nunca tive um mau estar, uma febre que fosse... Nunca percebi porquê... Nem naquela rave em Carcavelos, estive três meses fora, noutra dimensão ou galáxia, sei lá! Mas fora isso, estou descansado.
- Estamos a chegar ao corte para o hospital, é para lá que vamos?
- Está decidido! É mesmo para lá.
...
...
- São oito euros e setenta cêntimos.
- Aqui tem, fique com o troco.
- Obrigado.
(entra no hospital e encontra um amigo, dirige-se a ele)
- Olá rapaz, gosto em ver-te!
- Vítor, não te fazia aqui!
- Tudo bem contigo? Como vai a família, o emprego...
- Assim assim...
- Não queres falar? Estranho... Então, que problemas te trazem aqui?
- Pois... Vim a uma consulta no 5.º piso.
- Na psiquiátrica? Então?
- Problemas com a mulher, pá. As coisas não andavam nada bem, comecei a ir-me abaixo, depressão e afins, agora ando em tratamentos. E tu, para o mesmo piso?
- Não, porque perguntas?
- Com a tua vida louca...
- Umas dores de cabeça e ando a ver mal, de resto tudo bem. E quando tenho problemas para resolver, um psiquiatra é a última pessoa a quem recorro.
- Oh, oh... Então?
- Meto-me num táxi, é mais confortável e sai mais barato.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.

O meu primeiro voto

- Há muitos anos atrás, vivia um menino na companhia dos seus pais, família austera, gente de muito trabalho e fome, mas de poucas palavras, que percorria como formigas os campos onde trabalhava e acudia religiosamente ao primeiro badalar do sino da igreja, rezando com fervor incomum.
- É uma história ou uma parábola?
- Hum... depende. Se inflectires, procurando dobrar as tuas certezas à mensagem implícita, talvez lhe possamos atribuir a designação de parábola. Quanto às histórias, são como os diamantes. ajudam a cortar as densas camadas da ilusão até atingirmos a natureza das coisas, dos objectos, das pessoas.
- Não quererás dizer História? É que as histórias que aí se contam sobre o Ti André do Fundão, que (diz-se) era lobisomem, não se assemelham muito a uma verdade verdadinha verdadeira...
- Não me interrompas!
- Desculpa. Então... a decisão é minha?
- De certa forma, sim.
- Bolas! Não aguento esta responsabilidade, sou tão novo, nunca me atribuíram tal tarefa, não sei que mais fazer, liberta-me deste fardo que tanta infelicidade me traz!
- Hum... Pois. O menino cresceu sem nunca se sentar num banco de escola e da doutrina escolar nada sabia. Mas quando cravava as mãos na terra, levantava-as e escutava o que ela tinha para lhe dizer... e ela falava-lhe.
- Ela quem?
- O substantivo anterior mais próximo, a "terra".
- Ah... Dizia-lhe onde doía?
- Perguntavam-lhe como o fazia, encolhia os ombros, tímido. Diziam ter o dom de reconhecer a essência do que tocava, sentir-lhes as mudanças, perscrutar a alma. Aquele pacato ser de palmo e meio sentia o que palavras ou construções frásicas jamais conseguiriam descrever.
- Também fazia malabarismos com espigas de milho-rei?
- Não, mas evaporava as moléstias do campo quando a estes cantava, assentava o lodo fétido das águas estagnadas e à sua volta tudo crescia, viçoso, como se a própria Vida lhe pertencesse.
- Essas histórias do misticismo celta parecem-me vagas demais para delas sacar algum proveito... Falas bem, sacerdote do profano!
- É apenas uma história-barra-parábola, mas podia muito bem relatar a vida de qualquer um dos miúdos desta terra!
- Pois, tirando o maravilhoso e fantástico inexplicável...sim!
- Continuarei então. Um dia, o menino-metamorfoseado-em-homem decidiu conhecer o mundo que se escondia para lá dos pinheiros que rematavam o horizonte visível do alto da torre da igreja. Pegou numa pequena mala, nela colocou alguma roupa e um pouco de terra dentro de um frasco de café e partiu. Admirava-se a cada instante com...
- Essa história-barra-parábola é comprida, podes encurtar?
- hum... posso, até nem tenho grande jeito para isto.
- E como acaba?
- O menino-metamorfoseado-em-homem chegou à grande cidade. Arranjou trabalho como jardineiro do Jardim Municipal e a todos maravilhava com o desempenho da profissão. Já podia também votar, mas não sabia como, pois era difícil cravar as mãos nas opiniões nos candidatos ou cheirar-lhes as emoções à distância. Faltava-lhe por isso consciência da decisão. Então votou na bandeira mais bonita.
Obrigado, Mónica, pelas conversas.