Monday, December 22, 2008

Espírito Académico vs. Tradição Académica

“O formalismo fechado sobre si mesmo nada cria de essencialmente novo”.

Sebastião e Silva.

Nos últimos anos assistiu-se a uma explosão educacional como jamais se tinha visto em Portugal, em que a quantidade ultrapassou largamente a qualidade. Veja-se, como exemplo, o excesso de vagas relativamente às propostas dos alunos, ou a inexistência de nota mínima de acesso em alguns cursos. Justificaram-se esses erros (e outros), então, com necessidades inerentes a uma visão estrategicamente competitiva que permitisse ao país dotar-se de uma massa intelectual que, crítica, levaria o país a dar um passo em frente. Conversa de político, creio. A verdadeira razão? Justificar empregos, falsear índices de desenvolvimento, garantir apoios comunitários, gerar influências… A massa permanece hipocrítica (neo.)

De tudo acolhiam, então, as universidades, de bom e de mau. “Espanto?”, questiona-se?! A tragédia (embora a expressão tenha caído em desuso e sido substituída por “normalidade” ou comédia) não é deste tempo, e maximizou-se há trinta anos. Desde então, a tentativa é de democratizar em estrado pouco culto e acrítico. O resultado? Fantoches políticos, o povo da bandeirinha fácil e do comício circense. A qualidade dos protagonistas desta peça, que como já vimos, sofre de graves erros de “casting”, brada aos céus. Exemplo? Recordamos a natural apetência para o erro ortográfico: como conseguirão interpretar os guiões? Venha o improviso, baseado na mais pura tradição (o melhor álibi), e às críticas, ouvidos de mercador! Bons velhos tempos, poder-se-á dizer! Sim, mas… velhos de quantos anos? Já ouvimos as pancadas…

Há muitos e muitos anos atrás…existia a curiosidade própria de uma mente esclarecida.
Deixamos abaixo duas pistas que, indicando referências não totalmente esclarecedoras, aguçam o apetite. Avançando no tempo…

As universidades, outrora em frequente mobilidade, eram amiúde marginalizadas e expulsas pelas populações das cidades onde se estabeleciam. As razões, encontrá-las-emos no espectro da criminalidade: intoxicação etílica, desacatos, desordem pública, confrontos com a autoridade… Indícios evidentes de uma pequena criminalidade que apenas a libertação por decreto justificava: alunos eram julgados distintamente da restante sociedade (quando o eram).

É, pois, desta permissividade que se continua a construir o imaginário do ensino superior, onde a acumulação metodológica de um saber potencialmente despoletador de uma visão simultaneamente criacionista e progressista nuns justifica as vilanias e baixezas, bem como a capacidade de perpetuarem um espírito traiçoeiro e avesso aos ideais do espírito académico, noutros. Por favor, expliquem-nos o que é e o que não é o Espírito Académico. Sem subversões, sem eufemismos, preto no branco.

É por esta mesma realidade que vejo com reserva o tardio despertar de uma geração, possuidora de memória colectiva prodigiosamente volátil, para o confronto com o retorno (no sentido do alheamento por repressão) ao tempo idílico (ironia, pois nada tem de romântico, bucólico ou amoroso, embora o tenha de pastoril) de um totalitarismo mascarado de democracia. Porque foi, na História recente, pelas juventudes inconformadas que se fizeram algumas revoluções.

Tragam mais “Humanismo” para Leiria, e então teremos um possível princípio de Academia.

Tuesday, November 18, 2008

O Complexo de Bean

Rowan Atkinson, ciente da necessidade de uma transnacionalização humorística encontrou, no seu alter-ego Mr. Bean, a meta desse projecto, ainda que, e segundo palavras do mesmo, este não seja mais que uma versão adulta da criança que nele (ainda) reside, com algumas imperfeições adicionadas…

Definamos Mr. Bean como:

Ser carismático e reservado, naturalmente desconcertante e imaginativo, simples nos gostos, exagerado nos movimentos, incontinente nas maneiras, simpático, desprovido de “sex appeal”, egocêntrico, egoísta (excepto para o peluche, a quem se dá com todas as suas forças), socialmente inepto, autista por vezes é, em diversos instantes, a personificação da inveja. É da tristeza que esta criatura se alimenta para equalizar o seu vivir aos restantes membros da sociedade na qual se move.

Actos do quotidiano como comer, ir ao cinema, à piscina, ao parque, são motivos para extirpar frustrações, colmatar a necessidade de se fazer notado, levantar o dedo (por vezes o irmão do meio), humanizar-se, gritar mudamente “Estou aqui!!!...”

…sorrir de satisfação perante a perspectiva de umas trincas num pequeno bolo de morango, da compra de uma nova (e pequena) televisão, um mergulho na piscina municipal (e nisso muitos o invejam), uma ida ao hiper mais próximo…

Assim se move Bean: materialmente compensatório de uma insatisfação emocional, não olha a meios para se relativizar no banal, no comum, no vulgus, pois é esse o objecto de desejo da sociedade. Querendo tornar as aspirações da sociedade suas, Bean perde referências morais à medida que age: o ódio que sente no sentir-se suplantado, as palavras que segrega (naturalmente audíveis ou não), a transferência da culpa, o prazer nas desgraças e tristeza nas glórias alheias (fisicamente intensos) …

Neste mundo de discrepâncias sociais em crescendo, Rowan encontrou uma personagem que a todos causa, instantaneamente e enquanto criação, compaixão e deixa uma margem que nos possibilita a desculpabilização da sua momentânea perfidez enquanto virtualmente humano.

Como salvaguardar a sociedade deste tipo de conduta? Como contrariar a natural tendência para, afundados no imenso oceano de consumismo, nos lançarmos numa competição exagerada, buscarmos a suplantação do próximo pelo prazer de ultrapassar…

Não citius, altius, fortius mas o contrário: invejamos muitas vezes o que está próximo, somos baixos nas acções e isto mostra como somos fracos. Em suma, trata-se de um estado de sobrevivência por dependência na inadaptação de outrem, na exaltação do Eu pela subserviência do próximo...

Thursday, November 13, 2008

Sex is fashion?


Contrariamente à natural evolução do Homem, assente numa base racional/emocional, a qual o coloca num paralelo por demais alternativo em relação a todos os restantes membros do mundo animal, as tendências para uma enorme sexualização, explícita, do Homo Sapiens Sapiens são, por demais, evidentes, representando esta uma real regressão.

Tal visão do quotidiano não implica uma mentalidade conservadora mas uma abstratização holística da realidade tangível ao Homem, ou seja, a noção de que um objecto ou situação têm mais que um significado e podem influir, directa ou indirectamente, no comportamento do ser Humano : uma cruz, um punho cerrado, uma letra esteticamente alterada são disso exemplo. O corpo humano, enquanto expressão do “eu”, deve manter-se aberto e simultaneamente reservado.

Ainda há poucos dias se falava, em poucas palavras, da qualidade humorística de alguns filmes, tidos como “blockbusters”, que usam e abusam da tónica sexual para atingir o “gag”, ou, no português, a piada. Não será necessário recuar tanto no tempo para conseguirmos relembrar algumas pérolas cinematográficas onde a sexualidade, de tão implícita se encontrar sem, no entanto, roçar a visualização, era tratada e acarinhada de uma forma inteligente, brilhante mesmo dir-se-á, e onde em nada se perdia o enredo (do filme, claro está).

A utilização de algum vernáculo sexual de forma compulsiva por alguns autores é já razão de parte do sucesso de um programa de televisão. Portugal perde pontos, claro está, no panorama internacional: sabe-se que os programas de televisão são um bom aferidor da qualidade intelectual de um país! Da parte que concerne ao autor deste texto, este não deseja ver Portugal a par de uma Itália num futuro próximo.

A utilização da figura feminina para anúncios publicitários não conhece reservas, pois de praticamente tudo se vende recorrendo a esta. O homem deixou de se encontrar dentro das suas vestes há pouco tempo atrás, se bem que não encontro explicação para semelhante pudor. Os estrategas sim: não vende! Ora ainda bem! Até que ponto fará sentido uma estratégia de marketing desta forma orientada? Será o produto assim tão mau?

Portugal esteve ao nível dos seus semelhantes colegas europeus ao apresentar, em directo, umas supostas relações sexuais. Ainda bem, não fosse o nosso país atrasar-se também neste campo! Em conversa com alguns amigos, e distinguindo os respectivos significados, uns disseram ter sido um maravilhoso acto de amor, outros uma relação puramente sexual, outros ainda algo mais animalesco (devido à duração, me foi explicado), e cuja essência da palavra não a torna plausível de se encontrar neste texto. Fosse o que fosse, na televisão? Propagandeado? Onde está a relevância? A necessidade? O preservativo?

A InterNet seria, por esta razão de ideias, o que algumas mentes simples (não era para si, sr. Bush) definiriam como uma forma do Mal. As vantagens deste meio de comunicação são indubitavelmente evidentes, mas…

Sumarizando, creio ser o problema da banalização do sexo…esse mesmo, a banalização. Fazendo este parte de algo maior deveria permanecer controlado, pensado até, para que uma entrega do nosso corpo ao desconhecido, enquanto simbolismo, não se entranhe no nosso inconsciente e nos afecte o discernimento. Se não pensamos assim em relação a algo tão importante…